Esta história não é tão comum como as outras.

Quero partilhar convosco aquele dia. 

O dia em que caíram bolas de natal. Sim, caíram do céu azul, riscado com algumas nuvens sem serem profundas. Levemente foram caindo. Vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Eram estas as cores que desenhavam todo o cenário.

Era estranho pensar que bolas de natal pudessem cair em vez de chuva. Como se fosse chuva num dia de sol. Mas aquele fenómeno perdurou durante horas. Horas que pasmaram todos os habitantes da pequena aldeia de Funnerbrunch.

Estamos no meio de uma cordilheira de montanhas. Um rio que se deliciam entre curvas, florestas que se escondem nas encostas, culturas que sobem os declives. As casas são de xisto. Pequenas janelas escondem interiores modestos e as portas braveiam com os ventos que descem as vertentes. As ruas ou ruelas, desenham um labirinto. São esquinas de bancos sem dono, cruzamentos de ladainhas sem língua e nos fundos um aglomerado de tanques onde as lavadeiras giram roupas e as amassam nas mãos calejadas. Funnerbrunch é isto. 

E foi aqui que as bolas de Natal surgiram.

O espanto de todos era confuso e deixava os corações em saltos. Houve gente dividida entre quererem apanhas as bolas, bater-lhes pensando serem monstros que vieram dos céus, intriga pelo que seria aquilo de tantas cores e até indiferença. A indiferença veio de uma mulher, capaz de rondar o século de anos, que descansava de uma jorna de terra. Sentada junto a uma das esquinas de bancos, comia meio pedaço de pão seco. Os berros dos assustados deixavam-na incomodada,

– Não se pode descansar meio tempo nesta terra, que logo se espalham em gritarias sem termo,

– Não senhora Strungell. Desta vez é mesmo estranho. Bolas de várias cores caem do céu. Não vê?

– Se vejo, sim vejo. Mas não tenho nada para dizer. Logo não me entro pelas portas desse histerismo. E são bolas de natal.

– Como sabe? 

E é quando ela se esgueira no silencio. Enquanto isso o resto da aldeia continuava numa atarefada demanda pelas bolas de Natal.

Passadas algumas horas e já tudo estava inundado por bolas, chegou vindo da montanha, um homem mais misterioso que o próprio fenómeno. Trazia corpo coberto de vermelho e uma barba demasiado longa para se ver o lábio. Olhar perdido e forma cansada. Desceu sentado num trenó puxado por umas carcaças de renas. Esfomeadas e perdidas no cansaço. Ele saiu cambaleando. Um dos aldeões acercou-se dele, desviando a quantidade de bolas que se plantavam no chão,

– Que procuras, meu senhor?

– Procuro a minha mãe. Por acaso não a viste por aí?

– Sua mãe? Não sei quem será.

– Uma velha resmungona, sem piedade e indiferente a tudo a todos.

– Ah, essa senhora – precisamente que tinha trocado algumas palavras com a velhota que descansava pelo ligeiro de um banco – venha que lhe mostro já onde ela mora. Só tem um problema, a casa dela está quase soterrada por este amontoado de bolas.

Ele esgueirou-se no mar de bolas coloridas e chegou perto da porta. Sacudiu-se de bolas vermelhas e bateu. E voltou a bater, agora bem mais forte. E bateu, bateu e bateu. Até que das suas costas chegou uma voz,

– Não precisavas de te incomodar. Eu não passava bem sem ti. E podias evitar este espetáculo todo.  – Ele virou-se. Olhou-a. manteve-se preso ao mesmo lugar,

– Tinha de vir, tu sabes.  

– Eu sei que não te quero ver mais. Estou bem aqui. Já está. Pronto. Podes ir.

– Mãe. O Rodolfo precisa de ti. Está muito doente.

                                                                                              …continua…