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Diário do E(q)uilíbrio

Directed and designed by Swann and Yoann Chesnel
Music : A Photograph – Superpoze ft. Dream Koala (Combien Mille Records)

Hoje chegamos aos valores.

De repente, após uma noite serena, tudo mudou. O mundo transformou-se numa queda vertiginosa num mundo do desconhecido. O invisível veio para habitar os dias, as noites, os sonhos, os pensamentos, os acontecimentos. O impercetível entrou dentro dos corpos e tomou-os como peças de dominó, ajuntamentos que foram caindo e padecendo às mãos desse riso hipócrita de “ser vivo” que apenas vive no interior de um ser vivo. Que maldita maleita de junção natural. 

E nesta queda arrepiante, os medos mais profundos emergiram como monstros encriptados nos confins dos oceanos da nossa mente. E vieram as questões. Vieram as perguntas para quando a cura, para quando aquela sequela milagrosa que sempre chega e de repente a humanidade salva-se de um qualquer demónio sobrenatural. 

Mas houve quem parou. Não caiu, não se deixou levar pela ignorância das noticias e da falsidade. Não se deixou enternecer por promessas que para já apenas o são, que não esmoreceu aos pés da desgraça própria ou alheia…e arregaçou mangas e meteu as mãos na massa…

Falo de médicos, enfermeiros e todos os profissionais de saúde…mas falo também de autoridades, de prestadores de serviços, de empregados de fábricas, de especialistas, técnicos de diversas áreas…falo do pequeno comerciante que não aceitou, do restaurante que não aceitou, do talhante que não aceitou, do professor de ioga ou do Pt do ginásio que não aceitou…falo dos empresários que não aceitaram, dos gestores que não aceitaram…falo acima de tudo dos anónimos que não aceitaram…

Não aceitaram cair com o vírus. Souberam aceitar a sua presença, mas souberam ser resilientes à sua ameaça. E temos pessoas a serem salvas e tratadas nos Hospitais; pessoas a voluntariarem-se para ajudar os de maior risco ou os de pior situação social; pessoas a criarem caixas de solidariedade para que nada falte a quem precisa; pessoas a serem aconselhadas nas estradas e ruas; pessoas a conduzirem camiões ou a arrumarem os produtos nas prateleiras das superfícies para que nada falte; pessoas a resolverem problemas em casas particulares ou a transformarem rapidamente um Centro de espetáculos num Hospital de campanha; pessoas que independente da idade se adaptaram a irem levar os frescos, a carne, o pão, o vinho ou a agua a casa dos clientes e vê-los sorrir de agradecimento; pessoas a recriarem os seus restaurantes e estarem prontos a entregar em casa, seja na mesma cidade ou na mais distante; pessoas a darem aulas pelas plataformas; pessoas a ajudarem psicologicamente à distancia; pessoas a transformarem as suas fabricas para produzirem algo que nunca produziram; pessoas que não despediram e pensaram logo em estratégias para recriar e reorganizarem os seus negócios e as suas empresas; pessoas a não esperarem pelo que pode vir, mas desde logo olharam que a vida em si é a maior oportunidade que temos e estão a transformar mundos…e pessoas que sabem que milhões contam com as suas descobertas para a tal “cura”, mas que aceitam viver nesse modelo de pressão, apena porque um dia aceitaram serem investigadores… como o medico aceitou ser medico e sabe que a morte, por mais dolorosa que seja, é a verdade com quem habitam todos os dias…mas também coabitam com a vida, e logo, toda a luta, todo o esforço é uma vitoria, por cada vida que se salva…

Mas chegando aqui… o que diferencia estas pessoas de todas as outras?

Os valores! O saberem que a vida não é uma zona de conforto, que a vida é a peça de arte mais valiosa que se detém, que a vida é sempre uma oportunidade, por cada dia é um dia novo…

Vivemos um desafio que nunca nenhum de nós viveu. Mesmo os que podem ter vivido a Gripe Espanhola, apenas sabem histórias dela. E mesmo assim tudo era diferente. E o que diferencia, perante o incerto, o imprevisível, o desafio de quase sobrevivência? Os valores de cada um, a sua consciência enquanto seres vivos e existenciais enquanto indivíduos. 

E são os valores que podem desabar nestes momentos, como são os valores que podem recriar e ajudar a reconstruir tudo de novo.

Em tempos que tanto se discute a falta de consciência nos humanos, em que se discute as sustentabilidades das sociedades, as prioridades, o futuro… são os valores de cada um, a sua própria consciência criada e alimentada pelo valor de resiliência, pelo valor da vontade de aceitar a vida com a beleza que a vulnerabilidade lhes traz…leva-os a olharem para cada momento como o momento… a olharem para o infortúnio como a lição… olharem para o vazio como a oportunidade… olharem para a escuridão como a travessia… olharem para o medo como o combustível… olharem para o positivo e para a Vida como a sua essência. 

Nestes tempos que muito se fala de fé… o meu valor de fé, partilho-o convosco… é a centelha que arde no meu peito, é a semente que germina no meu pensamento… não é uma fé de crenças ou teologias… é uma fé de vida… é uma força de acreditar, de aceitar, de procurar alimentar uma consciência de livre arbítrio, aberta a um espirito de que a vida é a subida da montanha e por cada vitoria que alcanço, cada cume que atinjo, sei que tenho de continuar a subir…a fé de perceber que se a Vida me brinda com a oportunidade de aqui estar, tenho o dever de a viver e o direito a crescer…sabendo sempre que mesmo temendo, a Vida tem a súbita estranheza do fim…mas essa vulnerável verdade é o que me alimenta ainda mais a Viver e a Recriar cada dia…aprendendo, crescendo, partilhando e valorizando com a gratidão que a Vida merece…e assim, são os meus valores que fazem gostar de viver fora da zona de conforto, porque a Vida não uma zona, a Vida é tudo e tudo é muito mais do que só sobreviver…

Afinal, que valores são esses que queres partilhar? 

Afinal porque não dás uso aos valores que te habitam?

Afinal, os teus valores são estanques e irredutíveis?

Onde estás, fechado numa zona de conforto ou aberto na vida?

Afinal, quais são os teus valores?

Até amanhã….

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(In)Certezas

O valor dos valores na ESCOLA

Definir o conceito de educação tornar-se-ia redundante nesta altura, uma vez que é um tema sobre o qual muito se tem refletido e debatido nos últimos anos. No entanto, definir o conceito de valor, atualmente tão metamorfoseado e falsificado, dado o aparecimento em massa dos chamados contravalores, que insistem em permanecer, principalmente quando o TER se sobrepõe ao SER e delega para segundo plano todo o projeto humano, revela-se prioritário.
Com a palavra “valor” indicam-se, geralmente, os bens materiais, as profissões a arte, as normas ou regras e princípios, uma vez que são manifestações humanas, em que os sujeitos se realizam e se reconhecem. Mas é sobre os últimos que importa refletir e questionar, pois a maior parte das vezes pensamos que estamos a discutir os mesmos valores, mas é pura ilusão, pois na prática, nas atitudes tomadas e partilhadas, eles diluíram-se, não se encontraram e não sobreviveram.
Num momento em que se procura redefinir a escola e as políticas educativas, é necessário refletir sobre a nossa atitude como professores, conscientes da importância da interação entre todos os atores educativos, no desenvolvimento de atitudes cognitivas e atitudinais, na busca da simbiose entre o saber-ser, o saber-estar e o saber-viver. Na escola democrática, a participação na tomada de decisões deverá ser uma realidade para professores, alunos e pais, o que a torna um lugar privilegiado de aprendizagem para os valores Respeitando o desenvolvimento moral de cada um, a escola tem, cada vez mais, como tarefa primordial ajudar os jovens a nortearem os seus comportamentos por atitudes que os dignifiquem enquanto cidadãos ativos.
Não obstante, por melhor que seja a educação moral dentro de uma determinada escola, parte do seu impacto pode ser perdido se entre professores, funcionários e encarregados de educação não houver padrões comuns no seu relacionamento diário com o adolescente. Acredito que se os valores forem clarificados, elogiados e dignificados, a maior parte dos jovens alunos acabará por se aperceber da necessidade de os adotarem e de os verem adotados.
Por outro lado, atingir um consenso geral funcional sobre os padrões de comportamento mais importantes poderá parecer uma tarefa difícil, uma vez que a diversidade de matrizes culturais presente na escola é uma realidade, no entanto este continuará a ser sempre um dos desafios da profissão docente. Vários são os momentos em que o professor, preocupado com o futuro dos jovens com quem convive diariamente, os questiona sobre as suas intenções educativas, deparando-se com resposta como “não sei” ou “não quero estudar”, consciente ou inconsciente daquilo que é privilegiado naquelas estruturas cognitivas, por vezes tão imaturas e com preguiça de pensar.
O que importa mesmo é que a escola nunca desista, que continue a insistir numa formação integral dos alunos, que os ajude e lhes permita discernir o rumo certo, na conquista da sua realização plena numa sociedade com futuro, que lhes permita fazer as melhores opções, com consciência dos obstáculos e das tentações, que os faça pensar no “valor dos valores”.

Graça Rocha assina (In)Certezas.