Categoriespart(í)culas li(t)erárias

À conversa com Pedro Chagas Freitas, exclusivo do Et(h)er dos Dias.

Et(h)er dos Dias – Como chegas aqui, Pedro?
Pedro Chagas Freitas – Trabalhando, escrevendo, esgravatando. Sem parar. Todos os dias.
 
ED – Quando é que descobriste que era isto, a escrita, que de facto querias para ti?
PCF – Escrever está em mim antes de saber escrever: todos escrevemos quando somos crianças e contamos histórias. Isso já é escrever. Inventar, fazer de conta que. E eu escrevo desde aí.
 
ED – Tu orientas cursos de escrita criativa (sou suspeito em falar deles…;)). Já ajudaste a descobrir muitos escritores? Ou achas que as pessoas te procuram nesses cursos para se enriquecerem na escrita, mas com outros fins?
PCF – Cada pessoa tem os seus objectivos. O meu é o de, dentro do que posso dar, entregar a possibilidade de treinar, de testar, de desbravar novos caminhos na escrita. Dá trabalho, sim; mas dá ainda mais gozo.
 
ED – Fala-nos um pouco o que te move quando escreves um livro?
PCF – Move-me escrever.  É uma necessidade. Tenho mesmo de escrever. Mas fascina-me sobretudo o “e se?”. O conceito. Imaginar a história, a intriga, a ligação entre as personagens. E depois a forma: como vou contar esta história? Quem a vai contar? É maravilhoso. Maravilhoso.
 
ED – O Pedro Chagas Freitas escritor é um ser de paixões fortes? Achas que as pessoas têm carências desse tipo de sensação?
PCF – As pessoas são pessoas. E as pessoas amam estar apaixonadas — é para isso que aqui andamos. Uma pessoas sem paixões não é pessoa nenhuma.
 
ED – Tens explorado muito o Amor nos teus últimos livros. E os teus textos sobre o amor tem corrido mundo. Pensas que continua a ser uma busca incessante dos seres humanos, o amor?
PCF – Somos amor. O amor é a melhor coisa do mundo — pelo menos até prova em contrário.
 
ED – E pego no Amor, porque lançaste um novo livro da série “Prometo”, este que tem o título de “Prometo Amar”. Gostávamos que falasses um pouco desta série e deste teu novo livro.
PCF – É uma série de livros que têm um denominador comum: são um catálogo de pessoas. Das mais diversas idades, com as mais diversas experiências. Construir essa pessoas preenche-me por completo. Essa viagem a cada uma delas, com as suas falhas, as suas insuficiências, é a viagem que todos fazemos. E as melhores viagens são as interiores. Sempre.
 
ED – Achas que um escritor pode ter um papel importante na construção da consciência humana?
PCF – Todos os que, de alguma forma, chegam a muitas pessoas têm esse papel. Eu tanto não pensar muito nisso quando escrevo. Escrevo o que me apetece. É a minha forma de rebeldia.
 
ED – Disseste numa entrevista que um bom livro é aquele que mexe contigo. Se não o conseguir, isso é mau. És muito exigente face aos livros dos outros? E aos teus?
PCF – Só tenho essa exigência: seja num livro, num filme, numa música. Nada mais. Se mexe comigo é bom, se não mexe é mau. Aplico isso ao que leio e ao que escrevo, claro.
 
ED – Fala-nos um pouco do Pedro Chagas Freitas leitor. O que andas a ler, o que gostavas de ler…
PCF – Na poesia, ou prosa poética, regresso sempre a Herberto, a Al Berto, a Ruy Bello, a Rui Nunes. Na ficção, ando sempre à procura de novas experiências. Mas acabo também por regressar a Saramago, Camus, Faulkner, …
 
ED – Tenho aqui duas perguntas de leitores(as) teus. A primeira é, o que é que o Pedro não Promete? A segunda é, afinal o Pedro é ou não Deus?
PCF – Não prometo desistir de amar. Custe o que custar hei-de sempre fazer tudo para amar. Para encher de amor quem me ama. E sim: sou Deus dos meus passos. Isso está na minha mão. E já não é pouco.
 
ED – E pegando neste tipo de desafio de leitores, qual é a pergunta que nunca te fizeram e que tu gostavas de responder?
PCF – Se sou uma pessoa feliz. E sim: sou. Felizmente.
 
ED – Termino com dois desafios;

  • Imagina-te perante uma multidão de mulheres. Elas querem saber o que precisam para serem amadas. O que lhes dirias?

PCF – Para amarem. E isso aplica-se a homens e a mulheres. Sempre. Apesar de tudo: amar.

  • Nomeio-te o director da biblioteca do Et(h)er dos dias. Tens uma encomenda de livros para fazeres. Os que quiseres. Quais as escolhas?

PCF – Milhares deles; mas aqui ficam cinco — três incontornáveis e outros dois menos conhecidos:
 
O Estrangeiro, de Camus.
A Armadilha, de Rui Nunes.
Os Cus de Judas, de Lobo Antunes.
Tudo Pela Minha Mãe, de Celina Lopes.
Do Choupal à Cerca Moura, de Maria João Resende.
 
 
 
NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico.
 

Categoriespart(í)culas li(t)erárias

Umas luzes sobre tradução e revisão, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

 
Dado que a minha formação profissional foi outra, jornalismo, até poderia não ser a pessoa mais indicada para estar a dar aqui umas luzes sobre o que é a tradução e também a revisão literária. No entanto, já levo uns anos de experiência, com umas boas dezenas de traduções e revisões na «mala», e, por isso, acho que podem ficar minimamente descansados.
Para quem não sabe, ou nunca pensou, como funciona o processo de tradução de uma obra literária, aqui ficam então algumas luzes; da revisão «falarei» mais à frente neste texto, dado que se trata de uma fase posterior no processo de elaboração de um livro.
Uma editora por norma tem uma carteira de tradutores (trabalhadores independentes) com quem trabalha habitualmente e a quem encomenda as suas traduções. Para isso, pode ter em conta, quando possível, o facto de o tradutor já conhecer a obra do escritor em causa (pode ter trabalhado outros livros do autor), por já haver uma útil familiaridade, ou de estar habituado ao género literário do livro em causa. Havendo disponibilidade e interesse da parte do tradutor, é-lhe enviado o original. Hoje em dia, este original, por norma, é em PDF, sendo cada vez mais raro haver traduções feitas a partir de livros em papel – nem queiram saber o estado em que por norma ficam esses livros, às vezes até com blocos de páginas arrancados para serem mais fáceis de manusear. E, então, o tradutor começa a trabalhar no Word(ou outro processador de texto), por norma pressionado por um prazo apertado.
Um tradutor deve ter sempre em conta a «casa» para quem trabalha, pois entre as editoras há sempre pequenas «divergências» em termos de estilo. Por exemplo, que tipos de aspas usar, deve seguir o artigo antes do nome nos diálogos (ou até na própria narrativa, especialmente nas obras para públicos mais jovens), respeitar ou não o novo acordo ortográfico, os nomes das personagens devem ser traduzidos, 8thAvenue ou Oitava avenida ou 8.ª Avenida, etc.
Depois, há situações e dúvidas com que nos vamos deparando a cada passo e que às vezes é preciso resolver na hora. Aí, sigo a regra que me ensinaram no dia em que comecei a trabalhar nesta área: «Rui, usa o bom senso.» É uma boa regra para se fugir ao aperto do formalismo que tende a afetar quem teve formação na própria área da tradução. Eu, enquanto tradutor, perdi muito (nem sei bem quanto) por não ter estudado na área, mas ganhei alguma liberdade para tornar as «coisas» menos formais, o que em certos casos é vantajoso. A falta de formação específica também me permite nunca tomar nada por garantido, o que me leva a fazer inúmeras consultas antes de me decidir. Nem imaginam quantas vezes eu estava errado em relação a algo.
Um dos maiores tropeções que um tradutor pode dar é traduzir à letra algo que tem outro sentido subjacente. Traduzido à letra até pode fazer sentido, mas perde-se o requinte da ideia original do escritor, com prejuízo para o próprio mas, principalmente, para o leitor. Uma frase, ou ideia, vulgar pode afinal ser uma preciosidade, que não deve permanecer oculta.
texture-1362879_1280
 
 
As «outras» línguas
O mais comum é traduzir do inglês para português, seguido pelo castelhano e pelo francês, mas também se faz, naturalmente, a partir de outras línguas menos comuns em Portugal, como o árabe, o hebraico, o polaco, o sueco, etc. A dificuldade, aqui, reside em encontrar quem tenha conhecimentos para traduzir essa língua para português. Há uma alternativa, na qual os leitores mais atentos já poderão ter reparado por vir referida na ficha técnica de um livro: «Traduzido a partir da edição inglesa/francesa/espanhola por…» Não é a solução ideal (uma tradução de uma tradução perde sempre algo pelo caminho), mas por vezes pode ser o próprio escritor a recomendar uma tradução por ser aquela que no seu entender mais respeita o original.
Outra dúvida que poderá afetar os leitores é saber como é possível uma obra em língua estrangeira ter edição simultânea em Portugal e no seu país de origem. É o caso, por norma, dos livros de Dan Brown. Na verdade, é simples de explicar e de perceber. A obra é entregue antecipadamente ao editor que, quando o tempo escasseia, a distribui por vários tradutores em simultâneo. Cada um trabalha a sua parcela de livro, que depois serão reunidas, idealmente supervisionados por uma única pessoa, para tratar da uniformização de estilo e linguagem. Por norma, os envolvidos neste tipo de trabalho assinam um acordo de confidencialidade, para evitar que algo transpire antes do tempo para o exterior.
 
O melhor amigo dos tradutores
O revisor, papel muitas vezes ignorado que com frequência nem sequer é referido na ficha técnica, é o melhor amigo do tradutor. É o revisor que aperfeiçoa o texto, apanha as gralhas, descola o texto do original (está mais distante e tem mais facilidade em fazê-lo), corrige erros e interpretações mal feitas. A verdade é que quando um leitor lê um livro e aprecia a tradução não consegue perceber até que ponto foi a intervenção do revisor. Por exemplo, sei de um caso ocorrido há uns anos de uma tradução premiada que, na verdade, não era mais do que mediana. A revisão sim, fora excelente, mas o mérito foi todo para a tradutora. Para a revisora? Nem um agradecimento.
O ideal (possível e viável) é fazer duas revisões à tradução, podendo uma ser feita ainda em Worde outra já em papel, ou PDF, e paginado. Há quem defenda que deverá ser a mesma pessoa a fazer as duas, para limar o que deixou escapar na primeira (há sempre algo que escapa), mas também há quem opte por revisores diferentes para que, com outros olhos, um veja o que escapou ao primeiro. Ao contrário do que acontece com as traduções, há editoras que fazem as revisões internamente, socorrendo-se apenas ocasionalmente de revisores externos. Depende muito do fluxo de trabalho com que se deparem na altura.
Agora, sempre que ler um livro traduzido, já vai saber parte daquilo por que ele passou antes de lhe chegar às mãos.
 

Categoriespart(í)culas li(t)erárias partículas das viagens

Gonçalo Cadilhe em conversa com o Et(h)er. Parte 1. Os Livros.

Antes de ler, ou depois, ouça o podcast em
http://castbox.fm/app/castbox/player/id1167672/id73877100?v=3.2.29O
Et(h)er esteve em directo com Gonçalo Cadilhe. Falamos de viagens, de literatura, e do que pensa e sente sobre estas matérias.
Gonçalo Cadilhe nasceu a 24 de maio de 1968, na Figueira da Foz.
Profissão: Viajante e jornalista.
Tem vários livros publicados, como Planisfério Pessoal, A Lua pode esperar, África Acima, Nos passos de Magalhães.Escreve para vários jornais, com muitos artigos que tem marcado muito o imaginário de todos. Sempre com uma componente historicamente bem sustentada, aliás mais uma das suas afeições.
Surfista de paixão, chega mesmo a referir que onde há uma boa onda, há um destino a conhecer.
Têm sido imensos os projectos em que o Gonçalo tem estado envolvido. Exemplo disso, em 2014, lança-se com o Um Dia na Terra – Fotografias do Quotidiano do Planeta. Falamos de mais de 200 fotografias recolhidas por mais de 50 países.
O Et(h)er encontrou-se com o Gonçalo num dos seus locais preferidos, na Figueira da Foz. Bem junto à marina da cidade, com um clima ameno, uma pequena brisa e o silencio do rio ali mesmo ao lado.
Começamos por perceber, através de uma frase sua retirada de uma das muitas entrevistas que deu, “A minha vida é sempre uma viagem, uma liberdade”, o que o Gonçalo achava sobre a ideia de a Vida ser de facto uma viagem.
Foi desde logo engraçado, porque o Gonçalo já não se recordava da frase, referindo mesmo, “tenho é de contextualizar a época, porque eu já falo de épocas, pois já começo a falar em termos de décadas…
Relativamente à questão, de facto a vida é uma viagem, sendo mesmo uma ideia “transversal a toda a humanidade”. Fazendo uma ligação entre as várias culturas ancestrais, Egípcios ou Incas (ex.), até aos nossos dias. “A vida não é para os nómadas, mas para os viajantes” conclui.
Sobre os livros, recuperamos uma frase de Santo Agostinho, “O mundo é um livro, quem nunca viaja nunca saiu da primeira página” para perguntar o que achava sobre a importância de um autor viajar para conseguir um maior grau de realismo da própria historia. Isto mesmo comparado com o que se consegue viajar nos dias de hoje, através da internet. O Gonçalo fala-nos de um dos livros mais interessantes sobre viagens, escrito por Italo Calvino, “Cidades Invisíveis”, que “me provoca um delírio de pegar na mochila às costas e ir descobrir aqueles lugares”, mesmo sendo um livro que foi escrito sem nunca sair do seu lugar. Destacou o facto de todos os lugares descritos no livro são da imaginação do autor. “Acho que provavelmente um escritor hoje em dia, quando já foi escrito tanta coisa, precisa muito de se fundamentar muito bem”, a ideia que fica.
E a relação com os povos, com as civilizações, ajudou a enriquecer os livros do Gonçalo? “No meu caso, não tenho outra hipótese, o meu género é literatura de viagens, tenho de fazer viagens”.
Sobre a literatura de viagens, agora que existem muitos blogs, as pessoas continuam a preferir mais os livros? A confiança no autor?… Aqui o Gonçalo foi pragmático e realista, “O género tem pouco mercado em Portugal. Apesar de termos sido os que inventamos esse género através da Peregrinação” …” Mas as variedades de redes sociais, televisões, está a levar as pessoas a abandonarem livros, e na literatura de viagens sente-se mais a quebra e a falta de mercado. A discussão em redor de um género que precisa de leitores, mas onde estes andam mais distraídos em internets.”
O Gonçalo Cadilhe tem vários livros editados, da qual deixamos uma lista completa. Se quiserem saber mais sobre esta conversa, vão ao Podcast do Et(h)er dos Dias (ver endereço no cimo do artigo), quer em Castbox, quer em Itunes, onde está já a primeira parte desta entrevista. A segunda sairá no próximo mês e será sobre viagens.
      Mais recente,
    O Esplendor do Mundo(2017)

  • Nos passos de Santo António : uma viagem medieval(2016)
  • O mundo é fácil : aprenda a viajar com Gonçalo Cadilhe(2015)
  • Um dia na Terra : fotografias do quotidiano do planeta(2014)
  • Passagem para o horizonte(2014)
  • Um lugar dentro de nós(2012)
  • Encontros Marcados(2011)
  • O Mundo é Fácil(2010)
  • Um km de Cada Vez(2009)
  • Tournée(2008)
  • Nos Passos de Magalhães(2008)
  • África Acima(2007)
  • A Lua Pode Esperar(2006)
  • No princípio estava o mar: surf, viagens e outras inquietudes(2005)
  • Planisfério Pessoal(2005)

Este texto é escrito não respeitando o acordo ortográfico.

Todas as fotos deste artigo são retiradas do site oficial de Gonçalo Cadilhe.
Categoriespart(í)culas li(t)erárias

Livros são caros?…pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Os livros são caros? Nem por isso…

Sei que optar por este título pode levar algumas pessoas a insultarem-me. Mas é a mais pura verdade. Sigam-me até ao fim, é já umas linhas ali em baixo, e hão de concordar comigo.

Sim, há livros caros, e neste caso refiro-me principalmente às novidades – um livro só pode ter desconto de venda ao público superior a dez por cento ao fim de dezoito meses no mercado. Mas, se esquecermos as novidades, podemos arranjar bons (ou muito bons) livros a preços bons (ou muito bons).

Não faltam por aí promoções nas livrarias (físicas ou online) com imensas obras interessantes, desde contemporâneos a clássicos, além dos cada vez mais populares e disseminados livros de bolso. Neste último caso, a história é a mesma, as letras e o preço é que são mais diminutos.

E, depois, temos os livros em segunda mão, enquanto ainda subsistem alfarrabistas ou nos cada vez mais omnipresentes mercados de rua, ou, claro, online. E, se o objetivo passa «apenas» por ler e não guardar propriamente o livro, que tal recorrer às bibliotecas? Para quem não saiba, até há bibliotecas escolares que cedem livros aos pais ou encarregados de educação.

Sim, é agradável comprar um livro bom e vistoso e bem cheiroso, mas nem sempre é possível, só que isso não pode servir de desculpa para não se ler.

Nas nossas bibliotecas domésticas há espaço para todo o tipo de livros, deixemo-los coabitar nas estantes.

E, pensando bem, às vezes não vale mais a pena comprar dois livros de dez euros em vez de um de vinte? Ou dois de cinco em vez de um de dez? Sim, alerta para os mais distraídos: é possível comprar bons livros a cinco euros! Não acreditam? Passem, por exemplo, numa feira do livro e digam-me qualquer coisa.

Categoriespart(í)culas li(t)erárias

Entrevista exclusiva ao Et(h)er, com Paulo M Morais

Olá Paulo.
Falar contigo é sempre especial, sabes disso.
Porque nos conhecemos de uma forma muito particular, mas porque descobrimos que temos muitos gostos em comum (a música do Wim Mertens) e mantemos um contacto à distância, sem compromissos nem obrigações… como devem ser os amigos.
Por isso é um enorme prazer ter-te no Et(h)er.
Grato.
Falar de ti.
Nasceste no melhor mês de todos (risos). Em Lisboa. Licenciaste-te em Comunicação Social e trabalhaste em revistas e portais de internet. Escreveste critica de cinema.
Mas houve um momento que quiseste ir à descoberta. Mochila às costas e foste. Mundo fora.
Voltaste para te especializares em comida e turismo.
Já fizeste e fazes traduções e escreves. Já sei que plantaste também uma árvore.
E começo aqui,
Acreditaste em certa altura da tua vida, encontrares a máxima, pai, escritor e uma arvore plantada?
É difícil fugirmos aos clichés que marcam as nossas vidas. O completar dessa trilogia acaba por ser mais uma curiosidade do que algo com grande profundidade. Cada um desses atos — ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore –, vale por si.

Quem é o Paulo escritor?
Julgo que é a mesma pessoa que não é escritora. Ou seja, penso que a minha escrita reflete muito a pessoa que sou.

Tu que já conheceste tanto pelo mundo e viveste tantas experiencias, boas e menos boas, achas que a tua escrita reflete muito do que tens sido?
Metade dos meus livros baseia-se em experiências reais, pelo que me sinto bastante espelhado nalguns dos livros que escrevi. Alguns tiveram mesmo como fundo uma busca da verdade, sobre mim e sobre os outros, embora eu saiba que essa verdade é sempre subjetiva, parcial, incompleta. Parte dos meus livros acaba, por isso, por ser também uma tentativa de conhecimento do que sou e da influência dos outros em mim.

E falo de uma experiencia em especial. O cancro. Escreves um livro “Uma parte errada de mim”. Sentes que somos duas partes e somos fruto desta dicotomia meio religiosa, do bom e do mau?
Não. Nesse sentido o título poderá induzir em erro. Julgo que somos sempre múltiplos. Sou capaz de praticar o bem e também o mal. Muitas vezes trata-se apenas de uma questão de escolha. Noutras, a questão torna-se mais complexa. Ou seja, não acho o ser humano nada simples, nem divisível em maniqueísmos. Por isso, tendo a construir personagens ou livros que se movimentem numa área cinzenta.

Tens uma obra bastante diversa. Desde a Revolução dos Cravos, passando por uma historia do fim da literatura, e depois dois livros em que abordas a doença e a morte. O que procuras provocar no leitor com a tua obra?
Não parto para um livro com intenções em relação ao leitor. Parto porque me parecem histórias que gostaria de contar a alguém e, como não sou um bom contador de histórias orais, acabo por escrevê-las. Muitos dos meus livros tratam do tema da memória. Há pessoas, acontecimentos, épocas, experiências que, para mim, merecem ser recordados e, quem sabe, preservados no tempo.

Conta-nos resumidamente como foi essa experiencia na Escola da Ponte, de onde escreveste o fabuloso “Voltemos à escola”.
Foi uma experiência única de poder conviver quase diariamente com um conjunto de pessoas (alunos, professores, auxiliares de educação) extraordinárias. Acabou por ser um livro também de afetos, alguns dos quais se mantiveram após a publicação do livro.

Como escritor, sentes que tens um certo “poder” de deixares algo na consciência das pessoas?
Não. Para mim a escrita funciona como um ato de comunicação. Um livro é como uma conversa que se estabelece entre mim e o leitor. Se essa conversa, essa história que quero contar, tiver algum impacto no leitor, ótimo. Mas tento sempre fugir de escrever livros de doutrina.

Uma pergunta que os leitores adoram sempre ver respondida…a inspiração. Onde anda a tua?
Mas nunca tive muita dificuldade em inventar histórias ou personagens para os temas que queria abordar. Tenho várias ideias que poderiam dar romances. Contudo, ultimamente inspiro-me muito nas pessoas que me rodeiam. Ou nos antepassados que nunca cheguei a conhecer. Às vezes as melhores histórias podem estar mesmo ao nosso lado e nós não as vemos.

E como leitor, o que esperas de um livro?
Escolho os livros consoante o meu estado de espírito, o tempo disponível, a minha vontade momentânea, as necessidades de pesquisa. Tenho sempre quatro, cinco, seis livros começados. Também há muitos que ficam a meio, à espera do momento certo para serem terminados. Cada livro pede-me uma coisa. E, se eu o quero ler, tento adaptar-me a isso. Lê-lo nos momentos certos.

Para terminar, gostava de te lançar dois desafios,
Tens neste momento uma criança à tua frente que deseja perceber a tua obra. Como a explicas, escritor Paulo M Morais?
Não gosto de explicações. Preferia encontrar uns excertos adequados à maturidade da criança e lê-los. Podia ser que, dessa forma, ficássemos amigos e, mais tarde, teria todo o gosto em tentar responder-lhe às perguntas que ele me quisesse fazer.

Nomeio-te a director da livraria do Et(h)er. Tens uma encomenda para fazer para o verão que se aproxima. Que livros queres encomendar como imprescindíveis?
“Rio do Esquecimento” e, sobretudo, “A Febre das Almas Sensíveis”, ambos de Isabel Rio Novo. Podia ser apenas por ser a minha mulher. No caso, não é. É uma das grandes escritoras da nova geração. Depois, uns clássicos de Raul Brandão e Eça de Queiroz. A minha costela açoriana faz-me pensar nos monumentais “Gente Feliz com Lágrimas”, de João de Melo, e “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio. Lá de fora, Sebald, Cercas, os Paul Auster vintage, Cormac McCarthy. O problema das listas de livros é que são sempre incompletas, injustas, e em constante mutação.

Grato pela entrevista, muitos Parabéns.
Bom Caminho com boas escritas e óptimas leituras. E aguardamos mais pelo Paulo M Morais.

NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico, por parte do Et(h)er dos dias. As respostas de Paulo M Morais são com o novo acordo ortográfico.
Categoriespart(í)culas li(t)erárias

Nuno Nepomuceno, em entrevista exclusiva para o Et(h)er.

Olá Nuno, em primeiro lugar, o Et(h)er dos Dias gostava de te felicitar pelo teu percurso literário, e agradecer a tua disponibilidade para uma pequena conversa.
Aproveito ainda para te congratular pelo novo livro “Pecados Santos”, recentemente lançado pela Cultura Editora,
Et(h)er – Dizias numa entrevista que, de certa forma, tudo começou pela mão da tua mãe, quando ela te levava à biblioteca a ler, e como isso veio a influenciar a tua vontade de escrever. Sentes que os nossos primogénitos são também, direta ou indiretamente, as primeiras influências de um escritor? E nessas primeiras experiências de leitura, ela teve alguma influência?
Nuno Nepomuceno – Nós somos seres sociais. Necessitamos de interagir uns com os outros e os relacionamentos que mantemos ao longo da nossa infância e adolescência condicionam os comportamentos que manifestamos em adultos. A minha mãe é a grande responsável pelos hábitos de leitura que adquiri. Cresci numa aldeia, não tinha muitos brinquedos ou outras crianças com as quais me ocupar, e ela acompanhava-me à biblioteca itinerante que passava por lá quinzenalmente. O motorista não me deixava escolher os livros que queria, o que me deixava furioso, mas a minha mãe nunca o fez, apesar de ainda hoje lermos géneros muito diferentes. Aliás, dos meus cinco livros, ela apenas gosta de um.
nunonepomuceno_oficial1
E. – Referiste que o teu despertar para a escrita foi quando quiseste perceber e saber o que era estar do outro lado do livro. Sentes que um escritor é uma espécie de Deus, um criador que exerce um poder absoluto na história e nas personagens?
N.N. – Não. Eu sou tão responsável pelo destino das minhas personagens quanto elas próprias. Já tive casos de personagens que ganharam um protagonismo que não planeara de início, por exemplo, «forçando-me» a dar-lhes maior destaque, ou outras das quais me fartei e que acabei por cortar do enredo. O meu processo criativo é bastante dinâmico. Estabeleço pontos de passagem, referências, mas raramente tenho todas as certezas no início. Gosto de deixar espaço para a espontaneidade. Julgo ser mesmo nesses momentos de criatividade pura que sou melhor.
 
E. – E como vês e te sentes como escritor, na influência que podes ter na sociedade? Os teus livros abordam mais do que simples thrillers, logo o que procuras nas tuas histórias que possa vir a deixar algo no leitor?
 N.N. – A mensagem que o livro transmite é importante, sim. A meu ver, é uma forma de dar conteúdo ao enredo, para além de, à medida que vai sendo trabalhada, permitir também tornar as personagens mais ricas. Mas acredito que o livro deve ser equilibrado. É preciso oferecer um pouco de tudo ao leitor, incluindo envolvimento e evasão. Se ambas as dimensões da história forem bem conseguidas, o livro será naturalmente recordado pelos leitores.
 
E. – Pelo que já li, tu tens muita preocupação em estar bem documentado para criar, até pelo teu género literário. Podes partilhar com o mundo et(h)eriano, a preparação e a forma como te organizas para escreveres um livro?
N.N. – É um processo simples. Começo por ter uma ideia, um esboço muito ténue que possa orientar-me numa direção. Depois, vou à procura de algo que possa inspirar-me. As viagens são boas formas de fazê-lo, tal como procurar fotografias ou artigos de informação sobre o tema a explorar. De seguida, vem a recolha e compilação do material. É aí que começo a tomar as primeiras decisões, como quais serão as personagens, ou como irá começar ou acabar o livro, por exemplo. No fim, dedico-me à redação. Ultimamente, tenho optado por tentar isolar todos estes períodos, ou seja, só avanço para a etapa seguinte depois de terminada a anterior.
 
E. – E agora as viagens. Sei que as escolhes bem para os teus livros. Por exemplo a ida à Turquia para a “Célula Adormecida”. Outros autores dentro do género literário têm muito essa preocupação, em viajar e ver de perto os locais a introduzir nas histórias. Sentes que tem de ser um imperativo para se escrever de forma geral, ou achas que certos estilos conseguem ser construídos sem essas mesmas viagens?
N.N. – As viagens são a melhor forma de nos familiarizarmos com a cultura e o espaço de um local acerca do qual queremos escrever. Se tivermos a oportunidade de fazê-lo, recomendo-o. Contudo, hoje em dia, a pesquisa, documentarmo-nos, tem perdido importância. Vivemos numa sociedade apressada, em que só o imediato interessa. Mas esse simples trabalho preparatório, o de investigarmos sobre um local ou um tema, deve ser o princípio de qualquer livro, independentemente do género. Quem achar que poderá omiti-lo, estará a incorrer num erro.
nunonepomuceno_oficial10
 E. – E dessas viagens, tens algum relato mais curioso que gostavas de partilhar connosco?
N.N. – Têm existido algumas peripécias peculiares, mas a mais curiosa aconteceu em Istambul, a cidade que visitei para preparar A Célula Adormecida. No dia em que regressei a Portugal comecei subitamente a receber várias mensagens de pessoas a perguntarem-me se estava bem. Ocorrera um atentado num local que tinha visitado no dia anterior, o que é exatamente a intriga central do livro.
 
E. – E ler? Muito se fala que um escritor deve ler bastante. Partilhas da mesma opinião, ou achas que mais do que ler a paixão pela escrita e pela construção de histórias, deve reger os princípios de um escritor?
N.N. – Considero que a leitura é importante, sobretudo, enquanto estamos a formar a nossa própria voz. Se formos cuidadosos nas leituras que fazemos, podemos aprender imenso, pois tomamos contacto com diferentes estilos de escrita e narrativa, o que nos fará evoluir. Contudo, há que ter algum cuidado para não nos deixarmos influenciar em demasia. Mais importante do que escrever algo num género que admiramos, será transportar para o nosso trabalho a paixão e sentimento que temos pelo que fazemos. Só isso nos dará um grande livro.
nunonepomuceno_oficial20
E. – Agora gostávamos que nos falasses um pouco deste teu novo livro, “Pecados Santos”. Quais as expectativas?
N.N. – Pecados Santosjá está nas livrarias há mais de dois meses. Ainda é um pouco cedo para tirar ilações definitivas, mas o livro tem correspondido às expectativas. O objetivo que eu e a minha equipa traçámos foi que servisse para cimentar a minha posição enquanto autor de referência de thrillers. Trata-se de um livro que integrou alguns topse cuja edição eletrónica foi líder a nível nacional, o que aconteceu pela primeira vez na minha carreira. Portanto, estamos contentes com a aceitação que tem tido.
 
E. – Como vês o panorama literário em Portugal?
N.N. – Temos um mercado pequeno em que as pessoas não criam hábitos de leitura e não dispõem de muito dinheiro para comprar livros, o que dificulta a vida dos editores e escritores. Pensando no livro como algo que, geralmente, só é utilizado uma vez, trata-se de um produto caro. Por outro lado, também somos demasiado permissivos ao que nos chega de fora. Muitos leitores compram livros de um autor estrangeiro do qual nunca ouviram falar só porque é nórdico, por exemplo. No entanto, quando confrontados com um escritor português, dizem que não o fazem porque não o conhecem. Nós, os escritores nacionais, partimos sempre com um grande atraso em relação à concorrência externa. É como se aquilo que é feito cá dentro seja automaticamente considerado de qualidade inferior.
 
E. – Tu que surges através de um prémio literário, o Note! (Os meus mais sinceros Parabéns), o que sentes sobre a divulgação de novos autores portugueses?
N.N. – É cada vez mais difícil. Os novos autores necessitam de apoio, sobretudo, por parte das editoras, não só em termos de divulgação, como das condições de trabalho que lhe são oferecidas. Contudo, são raras aquelas que apostam em novas vozes, exatamente por causa das razões que expus anteriormente. Acho que deve haver um esforço mútuo. As editoras deverão proteger mais os escritores portugueses e estes novos autores devem repensar a forma como se posicionam no mercado. A renovação é muito importante, pois só ela nos fará avançar em termos culturais.
nunonepomuceno_oficial22
E. – Para finalizar tenho um desafio para ti, dividido em dois:

  • – O que dirias a um jovem que não conhece os teus livros, para o convenceres a descobrir a tua escrita?

 
N.N. – Que esperem um livro coeso, com uma história envolvente e uma escrita fácil de acompanhar. O resto terá de vir do interesse e gosto de cada um.
 

  • – Uma pequena lista de livros que te marcaram.

 
N.N. – O Estranho Caso do Cão Morto, Mark Haddon;
Os PilaresdaTerra, Ken Follett;
Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas;
A Ilha, Victoria Hislop;
A Mensageira, Daniel Silva,
por exemplo.
 
E. – Grato por esta entrevista. Boas escritas e bons livros.
N.N. – Eu é agradeço a oportunidade e desejo-te boa sorte para o Et(h)er dos Dias.
 

NOTA: Todas as fotos foram fornecidas por Nuno Nepomuceno, e publicadas com a sua autorização.
Categoriespart(í)culas li(t)erárias partículas de cinema

Ver um filme através de um livro, pelo Et(h)eriano Rui Azeredo

Sempre gostei de ler um livro e depois ver o respetivo filme, quando o há. Agrada-me comparar o que visualizei ao longo da leitura com a visualização formada pelo realizador e pela sua equipa. Quase nunca bate certo e eu fico invariavelmente a perder na comparação, mas é um exercício divertido. E, depois, há os raros momentos de glória que me levam a pensar: «Foi mesmo assim que eu imaginei a cena!»
Houve, no entanto, um caso em que ler o livro foi mesmo a minha única opção. E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, estreou em Portugal em dezembro de 1982 numa altura em que, por motivos de saúde, fiquei uns meses acamado. Fascinado com filmes como Encontros Imediatos do 3.º Grau ou Os Salteadores da Arca Perdida, uma nova obra de Spielberg só por si já seria o suficiente para me deixar desesperado. Mas, com a agravante de abordar um tema que me era querido (ETs amigos) a ansiedade redobrou. Na primária até ganhei um prémio de BD com uma história de aliens que chegam em paz à Terra, mas diga-se que terá sido mais pelo argumento do que pelos desenhos.
ET1
Como à época os filmes demoravam o seu tempo a cruzar o Atlântico (E.T. estreou em junho de 1982 nos EUA), muito se foi escrevendo por cá sobre Elliot e o seu amigo de outro mundo. Li, recortei e guardei tudo o que pude e fui formando o filme na minha cabeça, sem saber se daí a uns meses ainda o apanharia nos cinemas. Depois, socorri-me da melhor ferramenta possível para conhecer a história do E.T. A adaptação literária do filme, editada na saudosa coleção de livros bolso da Europa-América dedicada à ficção científica. É o número 44, logo a seguir a Blade Runner e antes de Batalha no Espaço – Os Jovens Guerreiros, para quem não sabe, a Galáctica original. E li o livro, que sendo uma adaptação direta do filme era fiel ao mesmo. Socorrendo-me das fotos já conhecidas, montei o filme na minha mente. E li o livro outra vez, pois sobrava-me o tempo e faltava-me a sala de cinema.
O escritor norte-americano William Kotzwinkle, que hoje se dedica essencialmente à literatura infantil, sem ser publicado em Portugal, foi o meu herói da altura, o meu escritor preferido, pois deu-me a possibilidade de «ver» o filme que eu tanto queria ver e que não sabia se algum dia o veria – talvez num futuro distante num dos dois canais de televisão que havia à época. Em 1982 não tínhamos a garantia de um dia podermos ver um filme perdido, pois os videoclubes e as cassetes de vídeo eram à data algo ainda distante de um comum português. Até hoje, naturalmente, já vi o filme várias vezes em vídeo, e até na versão dobrada em português. Mas, na altura, isso era algo tão distante como assistir ao vivo a uma corrida de Fórmula 1 ou um dia vir a ser jornalista ou andar de avião.
Semanas a passar, formando meses, eu em casa, o E. T. ainda nas salas de cinema. Na época o tempo de vida de um filme nas salas era bem maior, mas se saísse de exibição a minha única esperança seria uma matinée de domingo na sociedade recreativa local, com uma fita gasta cheia de cortes devido ao uso constante. Foi assim, aliás, que vi pela primeira vez no cinema um filme de 007, no caso Moonraker – Aventura no Espaço, numa sala mal escurecida, em cadeiras duras, num piso sem inclinação e com excelente vista para as cabeças da frente, tudo envolto numa cortina de fumo de tabaco.
Mas não foi preciso chegar a esse ponto. Assim que regressei ao ativo, algo que tratei de fazer quase de imediato foi rumar ao agora encerrado cinema Berna, em Lisboa, sozinho, porque tinha a impressão de que eu seria a única pessoa que conhecia que ainda não tinha visto o filme.
E se valeu a pena! Ainda hoje E.T. é o filme da minha vida e, diga-se, era exatamente como eu o imaginara com o recurso ao livro, enriquecido pelos meus recortes. Por isso, nunca esquecerei E.T. – O Extraterrestre, de Kotzwinkle, um dos livros da minha vida. Não é, visto ao fim de todos estes anos, a pérola literária que me pareceu na inocência da adolescência, mas ajudou-me a imaginar algo que eu temia não poder alcançar, levou-me lá, e é para isso mesmo que serve um livro, ou não é?

Categoriespart(í)culas li(t)erárias

A Profecia Asura. o Segundo livro.

Antonio Costeira acabou de lançar o seu segundo livro, inserido numa trilogia que teve inicio em “A Profecia”.
Capa-A Profecia
António Costeira deu-nos o prazer de conversar um pouco com o universo et(h)eriano, sobre este novo livro.
Foto
 

  1. Fala-nos um pouco deste teu novo livro?

 
A história insere-se no género fantástico.
Para dizer algo sobre este segundo romance, tenho que recuar um pouco ao primeiro.
Em A profecia, com o subtítulo Naur’Can, os acontecimentos iniciam-se numa terra chamada Alaghosadar, onde vários reinos coexistem pacificamente. Naur’Can é precisamente a capital do belo reino Elfo onde Davdak, um mago meio Homem, meio Elfo, de valores nobres e elevados, acaba por ser expulso devido a acontecimentos infelizes que culminaram com a destruição da capital. Humilhado, esqueces os nobres valores aprendidos, refugia-se no Reino da Garça e inicia o caminho de uma terrível vingança. Prevendo um futuro de trevas, escorraçado e com a espécie em vias de extinção, Angolon, o sábio Dragão dominante, prevê um futuro de trevas – o inverno do mundo. É precisamente ele que dá a Profecia a Riclamin que depois a oferece ao mundo.
Numa teia narrativa riquíssima em povos, personagens e localidades, Naur’Can é de uma imaginação tremenda que não deixa o leitor indiferente.
 
Em Asura iniciam-se as aventuras de Elvellon e Adanedhel, dois jovens que, por artes da milenar profecia saída da sabedoria de Angolon, são convocados a fazer parte do oráculo vaticinado, num mundo antigo e mágico. Novos seres fantásticos, numa narrativa em crescendo, são adicionados ao enredo de uma forma tão natural, que a leitura torna-se viciante. Na’Akano, o jovem que não conhece as suas origens, SuÄni, a jovem maga aprendiza de Astrid, Raven o Guardião ou ainda Burba o Anão, são exemplos. Edgard, o Duque de Unhais é uma figura notável. O que acontecerá aos três ovos de Dragão, será um mistério que os leitores procurarão desvendar com avidez.
 
 

  1. És um escritor do fantástico. Acreditas que em todos nós existe um mundo imaginário que, na maioria das vezes, fica escondido pelo decorrer dos anos?

 
Essa é uma verdade para mim. De muito debate para os psicanalistas. É a razão pela qual muitos talentos ficam por revelar.
 
 

  1. Como vês a literatura fantástica em Portugal? As diferenças para o resto do mundo.

 
Em Portugal lê-se bastante o fantástico, mas de uma maneira geral de autores estrangeiros. Os autores portugueses têm tanto ou mais qualidade.
 

  1. Quais as tuas expectativas para este segundo livro?

 
Quando um jogador brilha numa equipa secundária, é o craque da equipa e alvo da cobiça das equipes de elite. Em Portugal, como no resto do mundo, é fundamental que o treinador da equipe de elite saiba colocar o promissor jogador no lugar certo em campo. Eu diria que o meu primeiro livro é como o jogador da equipe secundária. Tenho de procurar provar ao treinador que o segundo livro merece subir de escalão.
 

  1. E as tuas expectativas como escritor deste estilo no nosso país e além-fronteiras?

 
A primeira parte da pergunta está intrínseca na resposta anterior. Ao segundo livro, penso que ainda é prematuro pensar em mais do que o mercado nacional. Há os regionais, os distritais e o nacional. Só se pode subir para a divisão imediatamente a seguir. Não gosto de dar um passo maior que a perna. Dá sempre mau resultado.
 

  1. Se fosses um mago, com um simples poder, qual escolherias?

 
Ter o condão de fazer os adultos acreditarem nos sonhos de criança.
 
Grato António Costeira, e em breve teremos mais novidades sobre este autor português. Estamos a preparar um Podcast com uma conversa sobre livros, sobre vidas e sobre um estado do et(h)er.
Até lá, ficam algumas opiniões sobre este autor,
 
Apesar de ser o primeiro  do autor, este livro revela já mestria do género da literatura fantástica. Mesmo aqueles que não são adeptos desse género ficarão presos por um enredo imaginativo que cruza o passado e o presente, aliando a fantasia histórica com a ficção científica. Físico na Universidade de Coimbra como um dos heróis do livro, convido os leitores a entrar na aventura.
Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra
 
A Profecia apresenta-se como uma obra que alia a ciência e o fantástico, numa teia narrativa dinâmica em que as histórias, narradas em alternância, seguem um percurso temporal repleto de avanços e recuos e guiam o leitor de forma sedutora, através das suas páginas. Elfos, dragões e povos surpreendentes criam uma imprevista aliança, inspirada pela magia das runas, e protagonizam o domínio da mente sobre a matéria.
 
Salomé Raposo
Autora e Licenciada, LLM – Estudos Portugueses
 
Todos os embates entre os Magos ao serviço de Davdak e os Magos da descendência de Astrid e seu dileto discípulo Na’Akano … são de uma violentíssima grandiosidade, digna dos melhores efeitos especiais que tem o cinema.
 
Jorge Magalhães
Arquiteto, Músico e Escritor
 
António Costeira é o mais recente autor a aventurar-se pelos meandros da literatura fantástica com uma nova Profecia, que promete enfeitiçar o coração dos portugueses com magia e superstição. Na verdade, A Profecia reúne os melhores elementos do fantástico medieval e sobrenatural, fundindo-os com alguns elementos reais, numa aventura de exploração e encantamento que, certamente, nos irá tocar com palavras sábias dotadas de um élan arrebatador.
Miguel Simão
Crítico Magazine HD