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(Re)visão

O passarinho verde

Diz a lenda do século XIX, que todos aqueles que demonstram, sem motivo aparente, uma enorme alegria é porque teriam acabado de ver um passarinho verde. A ave associada a esta lenda seria um periquito. A mesma que servia para levar, presos no bico, bilhetes trocados entre namorados. A ave de quem se encanta por algo ou alguém que acabou de ver.

Ao longo da nossa vida queremos ver muitos. Poisam muitas vezes no peitoril da nossa janela ou varanda, quando menos esperamos, fazendo-nos mostrar o nosso melhor ar de satisfação. Também sorrimos quando apenas os vemos voar a uma distância maior, mas suficientemente perto para os conseguirmos identificar. No entanto, o que os torna únicos é a sua capacidade de se transformarem em múltiplas coisas. Não é difícil, enquanto vamos somando dias, encontrar um passarinho verde em forma de livro, de brisa, de luar, de uma tarefa profissional bem executada, e uma música, de um copo de vinho ou simplesmente de uma lareira acesa.

A verdade é que o passarinho verde mais esplendoroso, transformando-se por isso também no mais desejado, é aquele que nos aparece em forma de gente. Capaz de nos deslumbrar, nesta maneira de se apresentar. E é esta a forma que precisa mais do nosso cuidado e proximidade. A beleza do bater das suas asas não se limitará apenas a instalar-se nos nossos sentidos, ao longo dos períodos, longos ou curtos, em que voa perto de nós. A enorme atenção que lhe dispensamos pela importância que lhe reconhecemos, vai fazer com que o passarinho verde nos fique para sempre. Mesmo que ele tenha voado, sem intenções de regressar. Mesmo que ele tenha desaparecido em definitivo, matando-nos de saudade.

Ver um passarinho verde, ultrapassa em muito o significado da sua cor, associada à esperança e à paz. É também deixar-nos, por mais ou menos tempo, felizes.

A corrida da felicidade é uma longa maratona que fazemos pela espetacular natureza da vida.

Sem passarinhos verdes, onde encontraremos resistência para a fazer?

José Rodrigues assina (Re)visão.
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(Re)visão

A diferença entre amar e amar perdidamente.

Quem já amou alguém, pelo menos uma vez na vida, sabe bem a diferença entre amar e amar perdidamente. Ama quem acorda e tem a noção das horas que são e se faz bom ou mau tempo na rua. Ama perdidamente quem pensa na pessoa que ama muito antes de pensar nas horas que são, e na rua, mesmo no inverno mais tempestuoso, vê sempre um sol radiante. Ama perdidamente quem sorri sem motivo, mesmo quando está sozinho, resolvendo rir de si mesmo. Ama quem acha que não existe ninguém mais belo no mundo do que a pessoa que se ama. Ama perdidamente quem acha que o mundo é um espaço demasiado pequeno para tão grande amor.

Ama quem acha que quando as mãos se reencontram podem misturar-se. Ama perdidamente quem acha que misturar mãos é muito mais do que as unir e que não sabendo onde estão, é deixá-las perderem-se. Ama quem olha enquanto sente uma forte e repentina chuvada de verão, que deixa um cheiro intenso a relva e a terra. Ama perdidamente quem deixa misturar bocas e pescoços e desaperta fivelas e botões enquanto o temporal decorre. Ama quem respira fundo e se deixa adormecer. Ama perdidamente quem acha que é proibido dormir até chegar a madrugada.

Ama quem junta um mais um ou dois mais dois e encontra um resultado. Ama perdidamente quem acha que encontrar lógica nos assuntos do coração é como caminhar a pé pelo meio de um deserto e não se preocupa que a vida inteira pode passar sem se encontrar um oásis. 

Ama quem combina números e letras, cores e temperaturas, desenhos e símbolos. Ama perdidamente quem acha que não existe um número total de combinações pois elas podem ser feitas com tudo e mais alguma coisa, de forma espontânea. Ama quem acha que a cor dos olhos da pessoa amada repousa na pele de um rosto bonito. Ama perdidamente quem os olhos têm uma cor indefinida e que reflete o brilho de um sol que aquece a pele e aparece sempre inteiro. Ama quem desenha sempre um sorriso na pessoa amada. Ama perdidamente quem acha que o rosto já tem tudo e por isso o sorriso se desenha sozinho, completo e íntimo, como aquela parte da natureza que o homem não tem o direito de modificar, mesmo que as luas, sejam elas quais forem, o queiram fazer.

Ama quem acha que tem apenas um coração dentro do peito. Ama perdidamente quem acha que talvez exista mais do que um coração dentro do peito, porque continua a viver mesmo depois de o entregar por completo a alguém que se ama…

José Rodrigues assina o artigo (Re)visão.
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adeus sem dizer adeus…

Augustina. Obrigado Augustina Bessa Luís.

A morte levou-a. Mas não levou a sua memória, as suas palavras, os seus livros e ensaios. A morte pode vir vestida de tecido e levar um corpo, que não apaga o que a vida escreveu.

Faltou tanto. Falta sempre quando se parte. Mas a si apenas me lembra uma coisa, a notabilidade de um Nobel que lhe assentava tão bem. Mas a sua simplicidade aparente não o desejava. Não se deseja tudo aquilo que se merece. E merecia-o.

“Acabarei como aquele que disse que pouco louvou na vida e se arrepende de não ter louvado ainda menos.”

O livro e as folhas nele contidas, foram sendo redigidas pela audácia de uma mulher sem medos. E sempre na roça das frases, devastando ideias e ideais, voçê não se prostrou perante os pensamentos alheios. E escreveu, escreveu e deu a saborear tantas historias, que hoje recordo com a paz de quem olha o seu nome e sente mais do que isso, mais do que as capas, os titulos ou os louvores…sente a paz de uma sabedoria unica e transversal ao seu tempo…

“O privilégio de se ser uma vítima do nosso sentimento de superioridade, é difícil de suportar. Assusta muita gente, parece uma heresia em tempos como os nossos. E, no entanto, é fundamental, para que uma obra seja feita.”

Obrigado Augustina Bessa Luís.

E nunca se diz adeus a quem nunca nos disse adeus…


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À conversa com Pedro Chagas Freitas, exclusivo do Et(h)er dos Dias.

Et(h)er dos Dias – Como chegas aqui, Pedro?
Pedro Chagas Freitas – Trabalhando, escrevendo, esgravatando. Sem parar. Todos os dias.
 
ED – Quando é que descobriste que era isto, a escrita, que de facto querias para ti?
PCF – Escrever está em mim antes de saber escrever: todos escrevemos quando somos crianças e contamos histórias. Isso já é escrever. Inventar, fazer de conta que. E eu escrevo desde aí.
 
ED – Tu orientas cursos de escrita criativa (sou suspeito em falar deles…;)). Já ajudaste a descobrir muitos escritores? Ou achas que as pessoas te procuram nesses cursos para se enriquecerem na escrita, mas com outros fins?
PCF – Cada pessoa tem os seus objectivos. O meu é o de, dentro do que posso dar, entregar a possibilidade de treinar, de testar, de desbravar novos caminhos na escrita. Dá trabalho, sim; mas dá ainda mais gozo.
 
ED – Fala-nos um pouco o que te move quando escreves um livro?
PCF – Move-me escrever.  É uma necessidade. Tenho mesmo de escrever. Mas fascina-me sobretudo o “e se?”. O conceito. Imaginar a história, a intriga, a ligação entre as personagens. E depois a forma: como vou contar esta história? Quem a vai contar? É maravilhoso. Maravilhoso.
 
ED – O Pedro Chagas Freitas escritor é um ser de paixões fortes? Achas que as pessoas têm carências desse tipo de sensação?
PCF – As pessoas são pessoas. E as pessoas amam estar apaixonadas — é para isso que aqui andamos. Uma pessoas sem paixões não é pessoa nenhuma.
 
ED – Tens explorado muito o Amor nos teus últimos livros. E os teus textos sobre o amor tem corrido mundo. Pensas que continua a ser uma busca incessante dos seres humanos, o amor?
PCF – Somos amor. O amor é a melhor coisa do mundo — pelo menos até prova em contrário.
 
ED – E pego no Amor, porque lançaste um novo livro da série “Prometo”, este que tem o título de “Prometo Amar”. Gostávamos que falasses um pouco desta série e deste teu novo livro.
PCF – É uma série de livros que têm um denominador comum: são um catálogo de pessoas. Das mais diversas idades, com as mais diversas experiências. Construir essa pessoas preenche-me por completo. Essa viagem a cada uma delas, com as suas falhas, as suas insuficiências, é a viagem que todos fazemos. E as melhores viagens são as interiores. Sempre.
 
ED – Achas que um escritor pode ter um papel importante na construção da consciência humana?
PCF – Todos os que, de alguma forma, chegam a muitas pessoas têm esse papel. Eu tanto não pensar muito nisso quando escrevo. Escrevo o que me apetece. É a minha forma de rebeldia.
 
ED – Disseste numa entrevista que um bom livro é aquele que mexe contigo. Se não o conseguir, isso é mau. És muito exigente face aos livros dos outros? E aos teus?
PCF – Só tenho essa exigência: seja num livro, num filme, numa música. Nada mais. Se mexe comigo é bom, se não mexe é mau. Aplico isso ao que leio e ao que escrevo, claro.
 
ED – Fala-nos um pouco do Pedro Chagas Freitas leitor. O que andas a ler, o que gostavas de ler…
PCF – Na poesia, ou prosa poética, regresso sempre a Herberto, a Al Berto, a Ruy Bello, a Rui Nunes. Na ficção, ando sempre à procura de novas experiências. Mas acabo também por regressar a Saramago, Camus, Faulkner, …
 
ED – Tenho aqui duas perguntas de leitores(as) teus. A primeira é, o que é que o Pedro não Promete? A segunda é, afinal o Pedro é ou não Deus?
PCF – Não prometo desistir de amar. Custe o que custar hei-de sempre fazer tudo para amar. Para encher de amor quem me ama. E sim: sou Deus dos meus passos. Isso está na minha mão. E já não é pouco.
 
ED – E pegando neste tipo de desafio de leitores, qual é a pergunta que nunca te fizeram e que tu gostavas de responder?
PCF – Se sou uma pessoa feliz. E sim: sou. Felizmente.
 
ED – Termino com dois desafios;

  • Imagina-te perante uma multidão de mulheres. Elas querem saber o que precisam para serem amadas. O que lhes dirias?

PCF – Para amarem. E isso aplica-se a homens e a mulheres. Sempre. Apesar de tudo: amar.

  • Nomeio-te o director da biblioteca do Et(h)er dos dias. Tens uma encomenda de livros para fazeres. Os que quiseres. Quais as escolhas?

PCF – Milhares deles; mas aqui ficam cinco — três incontornáveis e outros dois menos conhecidos:
 
O Estrangeiro, de Camus.
A Armadilha, de Rui Nunes.
Os Cus de Judas, de Lobo Antunes.
Tudo Pela Minha Mãe, de Celina Lopes.
Do Choupal à Cerca Moura, de Maria João Resende.
 
 
 
NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico.
 

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Isabel Rio Novo em conversa exclusiva com o Et(h)er…a escolha para o dia do Livro.

Hoje o Et(h)er fala com Isabel Rio Novo.
No dia do Livro, nada como conversarmos um pouco com uma das grandes promessas da literatura portuguesa.
Nasceu no Porto, decorria o ano de 1972.
Doutorou-se em Literatura comparada, e é docente em Escrita Criativa e outras áreas da literatura e cinema.
Publicou a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Em 2005, o seu romance A Caridadeé distinguido pelo Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.
Mas é como finalista, por duas vezes, que Isabel Rio Novo nos trouxe os seus dois últimos livros. Rio do Esquecimentoe A Febre das Almas Sensíveis, o seu último.
E sendo o dia do Livro, acho que tem de ser do ponto de vista do escritor, e da sua criação que vamos começar a conversa,
Et(h)er – Quando começaste a escrever as primeiras folhas em branco, percebeste desde logo que era este o caminho que desejavas?
Isabel Rio Novo – Sim. Comecei a ler muito cedo, graças às circunstâncias (não tinha irmãos, mas vivia rodeada de livros e tive uma tia-bisavó disponível para me ensinar). Ao mergulhar no mundo dos livros, depressa percebi que queria escrever, queria para mim essa forma de me relacionar com o mundo.
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E. – Quais as diferenças entre a Isabel Rio Novo escritora e a Isabel Rio Novo que leciona Escrita Criativa?
IRN – Espero que sejam poucas. Nas sessões (prefiro isso a chamar-lhes aulas) de Escrita Criativa que oriento (e não leciono), procuro colocar-me ao nível dos outros participantes no grupo. Sou apenas, em princípio, alguém com mais leituras, mais vida, mais experiência de escrita e mais habituada a praticar um certo distanciamento crítico em relação ao que escrevo. E também mais habituada a “publicar”, no sentido mais amplo do termo, isto é, a submeter à apreciação dos outros aquilo que escrevo.
 
E. – Tens uma perspetiva muito ampla quanto ao ato da escrita no seu todo. Como achas que uma pessoa sente que se descobre como escritor, com vontade e engenho para construir histórias?
IRN – Suponho que esse processo de descoberta varie muito de pessoa para pessoa. Alguns escritores reconhecem desde muito cedo a sua vocação. Outros descobrem-na mais tarde. Alguns tentam resistir-lhe. Outros, pelo contrário, perseguem-na com afinco. Um descobrem a vontade, mas, até o engenho estar amadurecido, têm de trabalhar muito… Enfim.
 
E – Quando começas cada livro, tens já a história toda concebida e deixas correr as palavras, ou tens uma conceção inicial e depois tudo é uma descoberta?
IRN – Tenho normalmente uma boa ideia geral da história, de como ela acaba e começa. Ah, e o título. Só quando chego ao título definitivo estou verdadeiramente a escrever. Aí, sei que o livro acabado é uma questão de trabalho e de tempo.
 
E – Tens uma obra muito rica. O que procuras provocar no leitor com a tua obra?
IRN – Trazê-lo a visitar o meu mundo. Emocioná-lo. Levá-lo a viajar e apresentar-lhe os meus «amigos à distância». Creio que tenho a capacidade de encontrar a brecha por onde a imaginação consegue iludir as circunstâncias do presente para chegar a uma época outra, não a que foi, naturalmente, mas a que construo na ficção. Um exercício de fantasia, até porque o fantástico é outro dos meus apelos, mas onde também entra pesquisa e trabalho.
 
E – No teu último livro recuperas uma fase muito conturbada e doente da História de Portugal no século passado, e contas uma historia à volta da tuberculose. O que pretendeste transmitir com esta relação emocional entre doença-amor-passado-saudade? Se é que ela te faz sentido, claro.
IRN – Uma parte importante do enredo desenrola-se na década de 40, no Caramulo, na altura uma reputada estância sanatorial onde se internavam os doentes de tuberculose. Hoje, a maioria dos antigos sanatórios está em ruínas. No livro, há uma rapariga que visita essas ruínas, recolhe despojos, sobretudo papéis, e que se interessa pelo tema porque está a preparar uma tese sobre escritores oitocentistas vítimas da tuberculose, a tal febre das almas sensíveis. O livro também dá conta deles. Eu não tive tanta sorte como ela, não encontrei tesouros nos escombros, mas foi durante uma visita ao Caramulo com o Paulo, em agosto de 2016, e graças às impressões fortes que o local exerceu em mim que resolvi, definitivamente, escrever o romance. Por isso, sim; se quiseres, todo o romance gira em torno de emoções.
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E – Como escritora, alguma vez te sentiste envolvida (de que forma for) com alguma personagem? Achas que os escritores por vezes se podem envolver em demasia no mundo da sua própria imaginação?
IRN – Sinto-me constantemente envolvida com as minhas personagens, mas julgo que nunca em demasia.
 
E – Uma pergunta que os leitores adoram sempre ver respondida… a inspiração. Onde anda a tua?
IRN – Anda por todo o lado. Muitas vezes basta uma palavra descoberta ao acaso numa página lida, uma ideia trocada com o Paulo, que também é escritor, um retrato, um papel antigo… Às vezes há uma ideia vaga que se vai instalando, se vai definindo, até que o gesto da escrita se torna inevitável. É verdade que pesquiso, leio, estudo, mas o clique inicial é um pouco misterioso.
 
E – E como leitora, o que esperas de um livro?
IRN – Que seja um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que me transporte numa viagem emocional. Onde eu encontre uma personagem de quem gostaria de ser amiga. Onde haja frases que correspondam ao que eu sempre quis dizer, mas nunca consegui dizer tão bem. Que me arrebate nem que seja pela beleza da linguagem. Enfim, tenho um conceito abrangente do que é “um bom livro”, que me torna interessada por muitos autores, géneros, estilos e correntes.
 
E – Para onde vai esta Isabel Rio Novo?
IRN – Muito provavelmente, vai regressar ao seu cantinho-escritório, abrir o computador e repegar na escrita do livro que tem em mãos. Ou seja, vai continuar a trabalhar.
 
E – Para terminar tenho estes dois desafios para ti.

  • Tens neste momento um jovem em busca do sucesso, achando que escreve umas coisas, e deseja de “morte” aprender a ser escritor. O que lhe dirias?

IRN – Que não se apresse a publicar. Que viva. Que escreva sempre. Que leia muito. Sobretudo, isso. Que leia muito, que experimente coisas novas, diferentes. Depois, ao publicar, dir-lhe-ia que é fundamental aprender a ser lido. Saber escutar as críticas, mesmo as que lhe pareçam absurdas, sem se sentir tentado a responder com azedume, mas sem se desviar das suas convicções.
 

  • Nomeio-te a diretora da livraria do Et(h)er. Tens uma encomenda para fazer para o verão que se aproxima. Que livros queres encomendar como imprescindíveis?

IRN – A grande tentação seria encomendar uns quantos livros entre os que ainda não li, só para ter a oportunidade de o fazer… Mas, enfim, quando a minha consciência de livreira viesse ao de cima, encomendaria a obra completa de Machado de Assis e de Agustina Bessa-Luís, porque são bem maiores do que qualquer verão.
 


 
Grato Isabel. Muitos sucessos e o Et(h)er aguarda as novidades de Isabel Rio Novo.

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Heróis do Ar, por Jaime Oliveira Martins. Entrevista exclusiva.

Jaime Oliveira Martins acabou de lançar o seu terceiro livro, “Heróis do Ar”, pela Cultura Editora.
Uma obra que vem fechar uma trilogia que começou com “Fontes de Guerra, Fontes de Paz” e que pelo meio surgiu “Mar Liberal”.
Após as apresentações de Leiria, sua terra, Moimenta da Beira, Lisboa e Porto, chegou a vez de Coimbra.
O Et(h)er esteve lá e assistiu a uma casa cheia de amigos, leitores e curiosos que entravam e saíam no auditório da Fnac.
A apresentação ficou a cargo do Tenente-Coronel Piloto-Aviador Monteiro da Silva, que começou por referir que após dois livros em que Jaime Martins atravessou a guerra por terra e mar, faltava o ar. “O ar aparece por ultimo, mas a aviação é a mais importante…”.
O ar que envolve conflitos presentes e passados, e decidirá muitos futuros. Mas no ambiente onde Jaime decorre com a historia, a primeira grande guerra, os pilotos segundo este militar, tinham uma conduta de regras, de respeito e de uma ética consciente.
O grande exemplo era a Fraternidade, palavra tão badalada na génese da Republica Francesa. O Tenente-Coronel Monteiro da Silva chega mesmo a ler um pedaço do “Heróis do Ar”, onde o autor segue com precisão essa mesma conduta que prevalecia na altura entre os aviadores, mesmo que inimigos.
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Jaime Oliveira Martins concedeu uma pequena entrevista, em exclusivo, ao Et(h)er, sobre este novo livro,
 
Et(h)er – Fala-nos do que se trata este “Heróis do Ar”.
Jaime Oliveira Martins – O “Heróis do Ar” trata-se de um romance Histórico que nos fala da implantação da República e dos conturbados anos que se seguiram, aproveitando o mote de coincidir com os primórdios da aviação militar em Portugal. Mantendo o rigor histórico, personagens ficcionados interagem com personagens reais,  levando o leitor a levantar voo num Farman 40 em 1917, em Vila Nova da Rainha, e a aterrar em Monte Real num F16 em 2009. Pelo meio, vive as marcas da guerra, os encontros, desencontros amores e paixões dos diversos protagonistas.
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E. – Na conversa que tivemos anteriormente (a), referiste que este livro fecha uma trilogia em que quiseste honrar heróis. Mas achas que os mesmos terminam neste livro?
JOM. – Não terminam neste, nem em nenhum livro, pois fazem parte da nossa memória colectiva.
 
E. – Que pesquisas fizeste para este livro?
JOM. – Muita bibliografia, fontes primárias e fontes secundárias. Algumas horas passadas em bibliotecas, museus e Arquivo Distrital de Leiria. Também julgo importante as visitas feitas aos locais, às trincheiras da Flandres, à procura das vivências e as experiências daqueles homens. Para tal, cheguei a efectuar um voo num avião bilugar com 66 anos, que foi o mais próximo da época que encontrei em condições de voar.
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E. – Na apresentação de Leiria, a primeira, tiveste o cuidado em oferecer um livro à primeira mulher a pilotar um F16. Queres explicar o porquê dessa tua iniciativa?
JOM. – Foi entregue um exemplar do livro ao Sr. Comandante da Base Aérea nº 5 em Monte Real, de que será fiel depositário, e se for o caso, entregará ao seu sucessor, e assim sucessivamente, até que este exemplar seja entregue à primeira mulher portuguesa a pilotar um F-16.
Espero que este gesto seja também um estímulo para todos os jovens, homens ou mulheres, para que procurem concretizar os seus sonhos, não se deixem dominar por preconceitos  e abracem os desafios de uma carreira que faz dos homens do ar seres únicos.
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E. – Neste livro onde está o Jaime Martins? Num avião, num herói, numa simples personagem?
JOM. – Em todo o lado, desde o pai que procura aconselhar um filho, ao filho que, embora respeitando o pai, segue o seu rumo, num nadador-salvador dos anos 80…
 
E. – Fazes neste livro uma homenagem aos combatentes da primeira grande guerra, mas também ao único português fuzilado em França, durante esse conflito. Sentes que dás um contributo ao exaltar desses homens que tanto deram de si em prol da Liberdade?
JOM. – Sem qualquer menosprezo pelos actos heróicos, que os houve, os heróis têm sido exaltados ao longo dos tempos. Preferi dar voz àqueles a quem a voz tem sido calada, vítimas das escolhas e opções de uma oficialidade que não tinha qualquer relutância em mandar os seus homens para a morte, ou mesmo executá-los a título de exemplo.
 
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E. – Como tem sido estes primeiros dias do “Heróis do ar”?
JOM. – Alucinantes, mas gratificantes com as salas das apresentações cheias, e com os primeiros retornos de leitores, muito estimulantes.
 
E. – Para onde gostavas que voasse este “Heróis do ar”?
JOM. – Gostava que este Heróis do Ar voasse dando um contributo para o melhor conhecimento da nossa História. Que os leitores de forma descontraída, agradável e emocionante, consolidem esse conhecimento, e sejam levados a reflectir. Gostava ainda que constituísse um estímulo aos jovens, para perseguirem os seus sonhos, e nunca desistirem de sonhar, dominados por estigmas, dogmas ou preconceitos.

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Grato Jaime, e ficamos à espera de mais livros e mais histórias.
Abraço

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Livros são caros?…pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Os livros são caros? Nem por isso…

Sei que optar por este título pode levar algumas pessoas a insultarem-me. Mas é a mais pura verdade. Sigam-me até ao fim, é já umas linhas ali em baixo, e hão de concordar comigo.

Sim, há livros caros, e neste caso refiro-me principalmente às novidades – um livro só pode ter desconto de venda ao público superior a dez por cento ao fim de dezoito meses no mercado. Mas, se esquecermos as novidades, podemos arranjar bons (ou muito bons) livros a preços bons (ou muito bons).

Não faltam por aí promoções nas livrarias (físicas ou online) com imensas obras interessantes, desde contemporâneos a clássicos, além dos cada vez mais populares e disseminados livros de bolso. Neste último caso, a história é a mesma, as letras e o preço é que são mais diminutos.

E, depois, temos os livros em segunda mão, enquanto ainda subsistem alfarrabistas ou nos cada vez mais omnipresentes mercados de rua, ou, claro, online. E, se o objetivo passa «apenas» por ler e não guardar propriamente o livro, que tal recorrer às bibliotecas? Para quem não saiba, até há bibliotecas escolares que cedem livros aos pais ou encarregados de educação.

Sim, é agradável comprar um livro bom e vistoso e bem cheiroso, mas nem sempre é possível, só que isso não pode servir de desculpa para não se ler.

Nas nossas bibliotecas domésticas há espaço para todo o tipo de livros, deixemo-los coabitar nas estantes.

E, pensando bem, às vezes não vale mais a pena comprar dois livros de dez euros em vez de um de vinte? Ou dois de cinco em vez de um de dez? Sim, alerta para os mais distraídos: é possível comprar bons livros a cinco euros! Não acreditam? Passem, por exemplo, numa feira do livro e digam-me qualquer coisa.

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Entrevista exclusiva ao Et(h)er, com Paulo M Morais

Olá Paulo.
Falar contigo é sempre especial, sabes disso.
Porque nos conhecemos de uma forma muito particular, mas porque descobrimos que temos muitos gostos em comum (a música do Wim Mertens) e mantemos um contacto à distância, sem compromissos nem obrigações… como devem ser os amigos.
Por isso é um enorme prazer ter-te no Et(h)er.
Grato.
Falar de ti.
Nasceste no melhor mês de todos (risos). Em Lisboa. Licenciaste-te em Comunicação Social e trabalhaste em revistas e portais de internet. Escreveste critica de cinema.
Mas houve um momento que quiseste ir à descoberta. Mochila às costas e foste. Mundo fora.
Voltaste para te especializares em comida e turismo.
Já fizeste e fazes traduções e escreves. Já sei que plantaste também uma árvore.
E começo aqui,
Acreditaste em certa altura da tua vida, encontrares a máxima, pai, escritor e uma arvore plantada?
É difícil fugirmos aos clichés que marcam as nossas vidas. O completar dessa trilogia acaba por ser mais uma curiosidade do que algo com grande profundidade. Cada um desses atos — ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore –, vale por si.

Quem é o Paulo escritor?
Julgo que é a mesma pessoa que não é escritora. Ou seja, penso que a minha escrita reflete muito a pessoa que sou.

Tu que já conheceste tanto pelo mundo e viveste tantas experiencias, boas e menos boas, achas que a tua escrita reflete muito do que tens sido?
Metade dos meus livros baseia-se em experiências reais, pelo que me sinto bastante espelhado nalguns dos livros que escrevi. Alguns tiveram mesmo como fundo uma busca da verdade, sobre mim e sobre os outros, embora eu saiba que essa verdade é sempre subjetiva, parcial, incompleta. Parte dos meus livros acaba, por isso, por ser também uma tentativa de conhecimento do que sou e da influência dos outros em mim.

E falo de uma experiencia em especial. O cancro. Escreves um livro “Uma parte errada de mim”. Sentes que somos duas partes e somos fruto desta dicotomia meio religiosa, do bom e do mau?
Não. Nesse sentido o título poderá induzir em erro. Julgo que somos sempre múltiplos. Sou capaz de praticar o bem e também o mal. Muitas vezes trata-se apenas de uma questão de escolha. Noutras, a questão torna-se mais complexa. Ou seja, não acho o ser humano nada simples, nem divisível em maniqueísmos. Por isso, tendo a construir personagens ou livros que se movimentem numa área cinzenta.

Tens uma obra bastante diversa. Desde a Revolução dos Cravos, passando por uma historia do fim da literatura, e depois dois livros em que abordas a doença e a morte. O que procuras provocar no leitor com a tua obra?
Não parto para um livro com intenções em relação ao leitor. Parto porque me parecem histórias que gostaria de contar a alguém e, como não sou um bom contador de histórias orais, acabo por escrevê-las. Muitos dos meus livros tratam do tema da memória. Há pessoas, acontecimentos, épocas, experiências que, para mim, merecem ser recordados e, quem sabe, preservados no tempo.

Conta-nos resumidamente como foi essa experiencia na Escola da Ponte, de onde escreveste o fabuloso “Voltemos à escola”.
Foi uma experiência única de poder conviver quase diariamente com um conjunto de pessoas (alunos, professores, auxiliares de educação) extraordinárias. Acabou por ser um livro também de afetos, alguns dos quais se mantiveram após a publicação do livro.

Como escritor, sentes que tens um certo “poder” de deixares algo na consciência das pessoas?
Não. Para mim a escrita funciona como um ato de comunicação. Um livro é como uma conversa que se estabelece entre mim e o leitor. Se essa conversa, essa história que quero contar, tiver algum impacto no leitor, ótimo. Mas tento sempre fugir de escrever livros de doutrina.

Uma pergunta que os leitores adoram sempre ver respondida…a inspiração. Onde anda a tua?
Mas nunca tive muita dificuldade em inventar histórias ou personagens para os temas que queria abordar. Tenho várias ideias que poderiam dar romances. Contudo, ultimamente inspiro-me muito nas pessoas que me rodeiam. Ou nos antepassados que nunca cheguei a conhecer. Às vezes as melhores histórias podem estar mesmo ao nosso lado e nós não as vemos.

E como leitor, o que esperas de um livro?
Escolho os livros consoante o meu estado de espírito, o tempo disponível, a minha vontade momentânea, as necessidades de pesquisa. Tenho sempre quatro, cinco, seis livros começados. Também há muitos que ficam a meio, à espera do momento certo para serem terminados. Cada livro pede-me uma coisa. E, se eu o quero ler, tento adaptar-me a isso. Lê-lo nos momentos certos.

Para terminar, gostava de te lançar dois desafios,
Tens neste momento uma criança à tua frente que deseja perceber a tua obra. Como a explicas, escritor Paulo M Morais?
Não gosto de explicações. Preferia encontrar uns excertos adequados à maturidade da criança e lê-los. Podia ser que, dessa forma, ficássemos amigos e, mais tarde, teria todo o gosto em tentar responder-lhe às perguntas que ele me quisesse fazer.

Nomeio-te a director da livraria do Et(h)er. Tens uma encomenda para fazer para o verão que se aproxima. Que livros queres encomendar como imprescindíveis?
“Rio do Esquecimento” e, sobretudo, “A Febre das Almas Sensíveis”, ambos de Isabel Rio Novo. Podia ser apenas por ser a minha mulher. No caso, não é. É uma das grandes escritoras da nova geração. Depois, uns clássicos de Raul Brandão e Eça de Queiroz. A minha costela açoriana faz-me pensar nos monumentais “Gente Feliz com Lágrimas”, de João de Melo, e “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio. Lá de fora, Sebald, Cercas, os Paul Auster vintage, Cormac McCarthy. O problema das listas de livros é que são sempre incompletas, injustas, e em constante mutação.

Grato pela entrevista, muitos Parabéns.
Bom Caminho com boas escritas e óptimas leituras. E aguardamos mais pelo Paulo M Morais.

NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico, por parte do Et(h)er dos dias. As respostas de Paulo M Morais são com o novo acordo ortográfico.
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Nuno Nepomuceno, em entrevista exclusiva para o Et(h)er.

Olá Nuno, em primeiro lugar, o Et(h)er dos Dias gostava de te felicitar pelo teu percurso literário, e agradecer a tua disponibilidade para uma pequena conversa.
Aproveito ainda para te congratular pelo novo livro “Pecados Santos”, recentemente lançado pela Cultura Editora,
Et(h)er – Dizias numa entrevista que, de certa forma, tudo começou pela mão da tua mãe, quando ela te levava à biblioteca a ler, e como isso veio a influenciar a tua vontade de escrever. Sentes que os nossos primogénitos são também, direta ou indiretamente, as primeiras influências de um escritor? E nessas primeiras experiências de leitura, ela teve alguma influência?
Nuno Nepomuceno – Nós somos seres sociais. Necessitamos de interagir uns com os outros e os relacionamentos que mantemos ao longo da nossa infância e adolescência condicionam os comportamentos que manifestamos em adultos. A minha mãe é a grande responsável pelos hábitos de leitura que adquiri. Cresci numa aldeia, não tinha muitos brinquedos ou outras crianças com as quais me ocupar, e ela acompanhava-me à biblioteca itinerante que passava por lá quinzenalmente. O motorista não me deixava escolher os livros que queria, o que me deixava furioso, mas a minha mãe nunca o fez, apesar de ainda hoje lermos géneros muito diferentes. Aliás, dos meus cinco livros, ela apenas gosta de um.
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E. – Referiste que o teu despertar para a escrita foi quando quiseste perceber e saber o que era estar do outro lado do livro. Sentes que um escritor é uma espécie de Deus, um criador que exerce um poder absoluto na história e nas personagens?
N.N. – Não. Eu sou tão responsável pelo destino das minhas personagens quanto elas próprias. Já tive casos de personagens que ganharam um protagonismo que não planeara de início, por exemplo, «forçando-me» a dar-lhes maior destaque, ou outras das quais me fartei e que acabei por cortar do enredo. O meu processo criativo é bastante dinâmico. Estabeleço pontos de passagem, referências, mas raramente tenho todas as certezas no início. Gosto de deixar espaço para a espontaneidade. Julgo ser mesmo nesses momentos de criatividade pura que sou melhor.
 
E. – E como vês e te sentes como escritor, na influência que podes ter na sociedade? Os teus livros abordam mais do que simples thrillers, logo o que procuras nas tuas histórias que possa vir a deixar algo no leitor?
 N.N. – A mensagem que o livro transmite é importante, sim. A meu ver, é uma forma de dar conteúdo ao enredo, para além de, à medida que vai sendo trabalhada, permitir também tornar as personagens mais ricas. Mas acredito que o livro deve ser equilibrado. É preciso oferecer um pouco de tudo ao leitor, incluindo envolvimento e evasão. Se ambas as dimensões da história forem bem conseguidas, o livro será naturalmente recordado pelos leitores.
 
E. – Pelo que já li, tu tens muita preocupação em estar bem documentado para criar, até pelo teu género literário. Podes partilhar com o mundo et(h)eriano, a preparação e a forma como te organizas para escreveres um livro?
N.N. – É um processo simples. Começo por ter uma ideia, um esboço muito ténue que possa orientar-me numa direção. Depois, vou à procura de algo que possa inspirar-me. As viagens são boas formas de fazê-lo, tal como procurar fotografias ou artigos de informação sobre o tema a explorar. De seguida, vem a recolha e compilação do material. É aí que começo a tomar as primeiras decisões, como quais serão as personagens, ou como irá começar ou acabar o livro, por exemplo. No fim, dedico-me à redação. Ultimamente, tenho optado por tentar isolar todos estes períodos, ou seja, só avanço para a etapa seguinte depois de terminada a anterior.
 
E. – E agora as viagens. Sei que as escolhes bem para os teus livros. Por exemplo a ida à Turquia para a “Célula Adormecida”. Outros autores dentro do género literário têm muito essa preocupação, em viajar e ver de perto os locais a introduzir nas histórias. Sentes que tem de ser um imperativo para se escrever de forma geral, ou achas que certos estilos conseguem ser construídos sem essas mesmas viagens?
N.N. – As viagens são a melhor forma de nos familiarizarmos com a cultura e o espaço de um local acerca do qual queremos escrever. Se tivermos a oportunidade de fazê-lo, recomendo-o. Contudo, hoje em dia, a pesquisa, documentarmo-nos, tem perdido importância. Vivemos numa sociedade apressada, em que só o imediato interessa. Mas esse simples trabalho preparatório, o de investigarmos sobre um local ou um tema, deve ser o princípio de qualquer livro, independentemente do género. Quem achar que poderá omiti-lo, estará a incorrer num erro.
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 E. – E dessas viagens, tens algum relato mais curioso que gostavas de partilhar connosco?
N.N. – Têm existido algumas peripécias peculiares, mas a mais curiosa aconteceu em Istambul, a cidade que visitei para preparar A Célula Adormecida. No dia em que regressei a Portugal comecei subitamente a receber várias mensagens de pessoas a perguntarem-me se estava bem. Ocorrera um atentado num local que tinha visitado no dia anterior, o que é exatamente a intriga central do livro.
 
E. – E ler? Muito se fala que um escritor deve ler bastante. Partilhas da mesma opinião, ou achas que mais do que ler a paixão pela escrita e pela construção de histórias, deve reger os princípios de um escritor?
N.N. – Considero que a leitura é importante, sobretudo, enquanto estamos a formar a nossa própria voz. Se formos cuidadosos nas leituras que fazemos, podemos aprender imenso, pois tomamos contacto com diferentes estilos de escrita e narrativa, o que nos fará evoluir. Contudo, há que ter algum cuidado para não nos deixarmos influenciar em demasia. Mais importante do que escrever algo num género que admiramos, será transportar para o nosso trabalho a paixão e sentimento que temos pelo que fazemos. Só isso nos dará um grande livro.
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E. – Agora gostávamos que nos falasses um pouco deste teu novo livro, “Pecados Santos”. Quais as expectativas?
N.N. – Pecados Santosjá está nas livrarias há mais de dois meses. Ainda é um pouco cedo para tirar ilações definitivas, mas o livro tem correspondido às expectativas. O objetivo que eu e a minha equipa traçámos foi que servisse para cimentar a minha posição enquanto autor de referência de thrillers. Trata-se de um livro que integrou alguns topse cuja edição eletrónica foi líder a nível nacional, o que aconteceu pela primeira vez na minha carreira. Portanto, estamos contentes com a aceitação que tem tido.
 
E. – Como vês o panorama literário em Portugal?
N.N. – Temos um mercado pequeno em que as pessoas não criam hábitos de leitura e não dispõem de muito dinheiro para comprar livros, o que dificulta a vida dos editores e escritores. Pensando no livro como algo que, geralmente, só é utilizado uma vez, trata-se de um produto caro. Por outro lado, também somos demasiado permissivos ao que nos chega de fora. Muitos leitores compram livros de um autor estrangeiro do qual nunca ouviram falar só porque é nórdico, por exemplo. No entanto, quando confrontados com um escritor português, dizem que não o fazem porque não o conhecem. Nós, os escritores nacionais, partimos sempre com um grande atraso em relação à concorrência externa. É como se aquilo que é feito cá dentro seja automaticamente considerado de qualidade inferior.
 
E. – Tu que surges através de um prémio literário, o Note! (Os meus mais sinceros Parabéns), o que sentes sobre a divulgação de novos autores portugueses?
N.N. – É cada vez mais difícil. Os novos autores necessitam de apoio, sobretudo, por parte das editoras, não só em termos de divulgação, como das condições de trabalho que lhe são oferecidas. Contudo, são raras aquelas que apostam em novas vozes, exatamente por causa das razões que expus anteriormente. Acho que deve haver um esforço mútuo. As editoras deverão proteger mais os escritores portugueses e estes novos autores devem repensar a forma como se posicionam no mercado. A renovação é muito importante, pois só ela nos fará avançar em termos culturais.
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E. – Para finalizar tenho um desafio para ti, dividido em dois:

  • – O que dirias a um jovem que não conhece os teus livros, para o convenceres a descobrir a tua escrita?

 
N.N. – Que esperem um livro coeso, com uma história envolvente e uma escrita fácil de acompanhar. O resto terá de vir do interesse e gosto de cada um.
 

  • – Uma pequena lista de livros que te marcaram.

 
N.N. – O Estranho Caso do Cão Morto, Mark Haddon;
Os PilaresdaTerra, Ken Follett;
Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas;
A Ilha, Victoria Hislop;
A Mensageira, Daniel Silva,
por exemplo.
 
E. – Grato por esta entrevista. Boas escritas e bons livros.
N.N. – Eu é agradeço a oportunidade e desejo-te boa sorte para o Et(h)er dos Dias.
 

NOTA: Todas as fotos foram fornecidas por Nuno Nepomuceno, e publicadas com a sua autorização.
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Podcast Et(h)er dos Dias Episódio 2

O novo episódio do Podcast do Et(h)er dos dias é com António Costeira, que recentemente publicou o seu segundo livro, “A Profecia de Asura”. Uma conversa sobre livros e sobre ideias.
CASTBOX:
https://castbox.fm/episode/Et(h)er_dos_dias_EP2_Antonio_Costeira-id1167672-id68935180?country=pt
ITUNES:
https://itunes.apple.com/pt/podcast/et-h-er-dos-dias/id1354143593?mt=2#episodeGuid=album-6e223e91535b4aaba2828f261f07a1cb-5944686445e848b1ad3dcd0bfa61afc5