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A onda…

A onda
Mar que vem e lhe toca
Areia que se enrola no pé,
Sol amarrado na pele.
A onda que despe a vida
O respiro de uma alma
Que se banha nos temperos dos dias
Amando
(Des)amando
Cada instante de morte
Que se aproxima pela nuvem do horizonte
E cai no manto espelhado do oceano.

A onda de
Gente que brinca
Mulheres que sangram
Homens que gritam
Pássaros que se amanham
No peixe que se pica nos iscos da história.

E a onda
Sem pressas e depressas
Espalha-se no enrolo da praia
E vai com o desenrolar do tempo,
Com o deleite de um momento.

La ola
El próximo mar viene a ti
Arena que se riza en el pie,
Sol atado a la piel.
La ola que despoja a la vida.
El aliento de un alma
Que se baña en las especias de los días.
Amoroso
(Des) amoroso
Cada instante de muerte
Acercándose por la nube del horizonte
Y cae sobre el manto espejado del océano.

La ola de
Personas que juegan
Mujeres que sangran
Hombres que gritan
Pájaros que vienen
En pescados que pican en los cebos de la historia.

Y la ola
Sin prisas y prisa
Se propaga en la bobina de la playa.
Y va con el desarrollo del tiempo,
Con el placer de un momento.





Categoriespart(í)culas li(t)erárias partículas das viagens

A Viagem de Lipório Eucristes. parte 1.

Lipório Eucristes tivera sempre uma vida sem vida nenhuma. Fechado dentro de uma casa isolada nos fins do mundo, nunca se atreveu a sair daquelas paredes amorfas. Nasceu por entre o tempo do sol que se levanta e aquele em que o mesmo se deita. Não houve tempo que contasse o seu tempo. A sua mãe fechou-o desde logo no cadafalso, para que não fosse comido pela vida dos homens. Tinha esperança que Lipório pudesse sobreviver à leviandade natural da vida, a morte dos homens. Foi alimentado pelos ratos que lhe traziam pequenos pedaços de comida e queijos fedorentos.
O seu pai, nunca o vira. Nem sabe se veio ao mundo por um pai. Lipório apenas descobriu o resto da casa quando escutou gritos vindos do andar de cima. Conseguiu romper a porta e ver pelas primeiras vezes, a luz que entrava. Deu com sua mãe descalça de vida e já entregue aos murmúrios do tempo sem tempo. Alimentou os animais que já se alinhavam nos corredores com o corpo dela. E passou a viver na parte de cima do mundo. Mas nunca saiu.
Passaram anos e continuou sem nunca sair. Lá fora havia dia e havia noite. Havia o ruido de água que batia nas janelas, de relâmpagos que iluminavam a noite e havia o sol…um calor que penetrava sorrateiremente toda a casa. Lipório tinha medo daquele calor súbito que lhe inundava a casa. Corria para fechar as velhas cortinas de pano. Mas ele nunca se escondia. O sol continuava a entrar e Lipório nesse instante fugia para onde a escuridão era reino e o frio o afastava qualquer calor.
Mas certo dia, Lipório Eucristes foi subitamente confrontado com a chegada de um novo hospede. Na porta embateu uma mão de ferro. Abriu-a sem força e fechou-a quase a destrui-la. Entrou e cada passo era fulminado. Deixava um rasto de soalho rasgado. Entrou na sala, onde Lipório tremia no receio, atrás de um velho sofá de cambala. Este foi afastado num folego e dos seus baixos olhos repara numa perna de ferro, duas aliás, um corpo fundido em ferro sujo, dois enormes braços com o ferro fundido e uns olhos de luz. Parecia-lhe que o sol havia entrado ali duas vezes. E mais assustado ficou quando esses mesmos olhos veem na sua direcção e lhe fixam todo o corpo. Um exame que lhe deixa a marca do pavor, espalhado pelos restos de roupa.
Lipório não sabia falar. Apenas ruminava sons que deixava escapar pela boca sem palavras. E assim o fez,
– O que dizes? – aquele sabia alguma coisa – que barulho estranho é esse?
Mas sem resultado nenhum nas respostas. Aquele monte de ferro aproximou-se mais e tocou-lhe. Era feito de pele, tinha ossos dentro e pedaços de carne, músculos, gorduras e entranhas arrepiantes.
– O que és tu?
E as respostas continuavam silenciadas pelo ruminar. Então o monte de ferro resolveu falar,
– Venho buscar a minha nave. Deixei-a aqui para escapar aos terríveis Grolondios, inimigos de morte que a morte nunca levou. Não sei quem és, mas se quiseres sair, parte e não leves nada. Mas se quiseres ficar, deixa-te quieto por esse lugar e não te metas pelo meio do meu andar.
Voltou costas a Lipório e subiu as escadas. A curiosidade era medrosa, mas queria saber o que era aquele ser que tinha corpo de metal e dizia coisas sem perceber.
Mas conseguiu ir no seu caminho e quando chegou perto do telhado, já via mais luzes e luzes, que saiam das paredes. O ferro mexia-lhes e movia um instrumento estranho. Era feito também de ferro e saía do chão. O mesmo chão que se começou a movimentar. Lipório soltou gritos de medo. Correu e desceu as escadas. Escondeu-se por baixo da mesa e tremeu até todo aquele barulho passar. Lá fora o céu movia-se, o sol entrava e saía e havia um balançar. Conseguido chegar junto de uma janela, viu que a terra ficava lá em baixo. Olhava as nuvens, os pássaros que voavam, tudo sem perceber o que era e o que acontecia. Resolveu regressar às escadas. Quase de corpo rastejante, foi junto do monte de ferro. Este observava, junto de uma janela, as estrelas que já chegavam. Lá fora umas enormes ventoinhas rodavam sem parar. A noite chegava ou era a terra que fugia. As nuvens ficaram lá em baixo e a escuridão abraçava. Agora não conseguia saber onde estava. E tudo se precipitou com um mover alucinado, quase hipersónico, mais rápido e mais rápido ainda.
Tudo voltou a abanar, e Lipório agora agarrou-se a uma das enormes pernas do ferro que não se mexia. Sentia o vomito nos dentes, o coração a traulitar nos pés. Os olhos queriam fugir pelas orbitas e a orbita fugia dos olhos. Até tudo voltar a parar. E aqui Lipório Eucristes levantou-se e espantou-se. Já não via um sol, mas uns cinco a brilhar. Havia pequenas luzes que se moviam e moviam. E muitas casas que flutuavam. Estranho perceber que por cima de montanhas encrustadas nos vales, as casas voavam com pequenos pedaços de terra agarrados. Havia hélices de tamanhos abomináveis que giravam com a força do ar.
– Chegamos. De volta a casa. Handlender. Lar.
 
– Continua –

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Memórias…

Ao olhar em espanto a fotografia, perdida entre o entulho daquele sótão, deixava sobrar uma lágrima no meio rosto que caíra sobre as mãos.
Sempre foi difícil regressar. Lembrar que foram imensos os dias em que se perdeu no seu colo, na sua paciência, nas palavras difíceis. E o tempo levou tudo. Como um vento que desceu a sombra da montanha, contornou o vale e surripiou a cidade, levando as histórias e deixando as memorias.
A foto que ainda descansa entre os dedos. Ele regressa à infância. Os eternos domingos. Onde em ombros  que chegavam a doer, mesmo a calejar, reservavam o seu lugar. Naquela estrutura inabalável de um pai que mostra o mundo aos sonhos do filho. E ele amava aquele mundo. Conseguia que todos os olhassem em inveja própria. E nunca se atormentou pelos quase 2 metros que o seu pai projetava. Apenas gozava o panorama. Todo o horizonte tornava-se tão próximo que quase tocava a distancia mais longínqua. E eram os jogos de domingo, as brincadeiras pelo parque, o gelado ou mesmo a corrida para apanharem o autocarro.
Retira ainda mais uma lembrança. Um disco. O vinil que incorpora o legado. Trá-lo para baixo, limpando-o com todo o cuidado e coloca-o no prato. A agulha fina cai sobre o rebordo. Saem umas fagulhas de ruído. A música começa. Encosta-se no sofá, fechando os olhos. E, de novo em espanto, deixa-se ir. O rio leva-o para junto do pai, longe dali, onde o pasto nunca mais seca,
 It’s not time to make a change
Just sit down, take it slowly
You’re still young, that’s your fault
There’s so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old, but I’m happy
,*
E chora na lembrança.
 

* Letra da música Father and Son de Cat Stevens