A diferença entre amar e amar perdidamente.

Quem já amou alguém, pelo menos uma vez na vida, sabe bem a diferença entre amar e amar perdidamente. Ama quem acorda e tem a noção das horas que são e se faz bom ou mau tempo na rua. Ama perdidamente quem pensa na pessoa que ama muito antes de pensar nas horas que são, e na rua, mesmo no inverno mais tempestuoso, vê sempre um sol radiante. Ama perdidamente quem sorri sem motivo, mesmo quando está sozinho, resolvendo rir de si mesmo. Ama quem acha que não existe ninguém mais belo no mundo do que a pessoa que se ama. Ama perdidamente quem acha que o mundo é um espaço demasiado pequeno para tão grande amor.

Ama quem acha que quando as mãos se reencontram podem misturar-se. Ama perdidamente quem acha que misturar mãos é muito mais do que as unir e que não sabendo onde estão, é deixá-las perderem-se. Ama quem olha enquanto sente uma forte e repentina chuvada de verão, que deixa um cheiro intenso a relva e a terra. Ama perdidamente quem deixa misturar bocas e pescoços e desaperta fivelas e botões enquanto o temporal decorre. Ama quem respira fundo e se deixa adormecer. Ama perdidamente quem acha que é proibido dormir até chegar a madrugada.

Ama quem junta um mais um ou dois mais dois e encontra um resultado. Ama perdidamente quem acha que encontrar lógica nos assuntos do coração é como caminhar a pé pelo meio de um deserto e não se preocupa que a vida inteira pode passar sem se encontrar um oásis. 

Ama quem combina números e letras, cores e temperaturas, desenhos e símbolos. Ama perdidamente quem acha que não existe um número total de combinações pois elas podem ser feitas com tudo e mais alguma coisa, de forma espontânea. Ama quem acha que a cor dos olhos da pessoa amada repousa na pele de um rosto bonito. Ama perdidamente quem os olhos têm uma cor indefinida e que reflete o brilho de um sol que aquece a pele e aparece sempre inteiro. Ama quem desenha sempre um sorriso na pessoa amada. Ama perdidamente quem acha que o rosto já tem tudo e por isso o sorriso se desenha sozinho, completo e íntimo, como aquela parte da natureza que o homem não tem o direito de modificar, mesmo que as luas, sejam elas quais forem, o queiram fazer.

Ama quem acha que tem apenas um coração dentro do peito. Ama perdidamente quem acha que talvez exista mais do que um coração dentro do peito, porque continua a viver mesmo depois de o entregar por completo a alguém que se ama…

José Rodrigues assina o artigo (Re)visão.