Professora

O que queres ser quando fores grande?

– Professora.

Pergunta recorrente no discurso dos professores quando chegamos pela primeira vez à escola: o que queres ser quando fores grande?Também eu não poderia ser exceção e fui convidada a responder, num ambiente de grande entusiasmo e euforia, que caracteriza este primeiro contacto.

Naquela altura, não tinha grande conhecimento do que queria ensinar, residia apenas a consciência inocente de que queria partilhar o que tinha aprendido, intencionando conviver constantemente com novas ideias, diferentes posturas e objetivos distintos, na ânsia de uma maior e melhor construção pessoal. Desconhecendo, ainda, a essência da arte de ensinar, reconhecia no professor um mentor para a vida, cabendo-lhe a palavra certa para qualquer contexto. E a bagagem que o professor Amâncio me deixou, naquela primeira aprendizagem, revelou-se memorável e inesquecível, capaz de me ir provocando sorrisos no rosto sempre que a “sacola” se agita.

Depois de algumas opções curriculares, o percurso revelou-se objetivo, imbuído de desígnios definidos e sonhadores, num ambiente profissional plural e exigente, mas, ao mesmo tempo, muito prometedor, não só porque visionava a garantia de um vasto leque de relações humanas, mas sobretudo porque me permitiria percorrer, continuamente, o caminho da aprendizagem, apanágio de qualquerlocus educativo.

Volvidos alguns anos, aqueles que foram mesmo necessários, pois acabou por ser uma “viagem” rápida, concretizei o meu sonho. Feliz, com muitas premissas na pasta, recheadas de vários princípios e entretecidas de sentimento, entrei pela primeira vez na escola como professora, certa de que iria contribuir para o crescimento daqueles por quem tinha ultrapassado tantos obstáculos – os meus alunos. Ambicionava mudar a escola, principalmente o esquema das relações entre professores e alunos, pois, neste papel, ou porque a minha timidez falava mais alto, ou porque os costumes eram outros, não conquistei grandes momentos de diálogo e de partilha com os meus professores. Pretendia exatamente o contrário, construindo pensamentos que privilegiassem tudo menos o silêncio, a inação, o desencanto, o pessimismo ou a deceção daqueles que se encontravam a construir os seus sonhos.

Claro! A escola mudou, as perspetivas de futuro metamorfosearam-se em pequenas (ou grandes…) feras de um bosque assombrado pelos que não percebem nada deste projeto, aqueles que desconhecem, ou fingem desconhecer para criticar, as verdadeiras razões dos profissionais que não contabilizam as horas utilizadas na construção dos saberes, que desempenham tantas “profissões” ramificadas, que oferecem o seu tempo para o crescimento de todos e de cada um.

Agora, no centro de um ambiente um pouco debilitado, os professores continuam a “sonhar”, aguardando o reconhecimento da sua ação, considerada basilar no processo de evolução da humanidade. Sem dúvida que o verdadeiro reconhecimento será sempre encontrado no polo mais importante deste processo – os alunos. É por eles que lemos e relemos normativos, redigimos e arquivamos (por vezes, sem ninguém ler…) documentos e mais documentos, é por eles que continuamos a construir discursos promissores, encorajadores, regados com energia, expectando futuros auspiciosos e construtivos.

A Professora…

Graça Rocha assina (In)Certezas.