Sem Internet por umas horas… é o caminho…

Nas férias de verão proliferam conversas, algumas mais casuais, outras banais, mas ainda há aquelas que solicitam pequenas ou grandes reflexões sobre as atitudes humanas no século XXI. Uma dessas conversas aconteceu numa tarde de praia, em que a pergunta que me ocorreu para uma jovem de treze anos, que não largava o telemóvel, foi: se amanhã não houvesse Internet, o que mudaria na tua vida? De tão estupefacta, largou uma gargalhada e perguntou se me referia ao sistema em geral ou às redes sociais. Claro que decidi circunscrever a questão e incidi nas redes sociais. A jovem menina, fã do Instagram, sim, porque o Facebook é para“cotas”, dizia ela, apenas disse que, tal como lhe tinha ensinado, a pergunta lançada era retórica e nesse âmbito não exigiria resposta.“Não há resposta para essa pergunta”, dizia ela, “impossível imaginara vida das pessoas sem redes sociais, em que elas podem comunicar, saber informações de tudo à distância de um clique”, reforçava. Parei para pensar e fui consultar o relatório diário do meu telemóvel, consciente de que também eu gastava demasiado tempo à frente do seu visor. E a informação lá estava à espera de uma leitura analítica e reflexiva. Sustentava que, naquela semana, eu tinha aumentado as horas de tempo gasto com o telemóvel, passando para cerca de quatro. Indicou, inclusive, um dia em que o tempo circundava as oito horas, o que me assustou e petrificou um pouco o cérebro. Será? Será que também eu não conseguiria passar um dia apenas sem recorrer à Internet e às redes sociais? Certa de que a resposta seria óbvia, ainda não a queria assumir e sabia que, na semana seguinte, iria viajar para um país em que a comunicação não seria fácil, dada a mudança de rede e o preçário praticado. Teria mesmo de me desprender do telemóvel e convencer-me de que não era necessário. Contudo, quando entrei no avião e me apercebi de que só no dia seguinte poderia, ou não, dar a informação à família que teria chegado bem, comecei, qual gíria popular, a“entrar em parafuso”. Nove horas de avião, o tempo de espera no aeroporto para o reconhecimento e a autorização do visto de entrada, somando a viagem até ao hotel, resultavam em aproximadamente doze horas sem telemóvel… No hotel, não havia internet livre, teria de ser comprada em blocos de duas horas a um operador que, no dia seguinte, se encontraria na receção… Que grande problema, o que fazer? NADA, que foi exatamente o que fiz. Decisão tomada… iria apenas enviar mensagem para a família a informar que estaria bem e não tocaria mais no telemóvel, nem consultaria e-mail, Facebook ou Instagram. Se naquele dia acreditava que a decisão seria cumprida, no dia seguinte assumi o meu vício e comprei internet. Ato que foi repetido três vezes numa semana. Assumi-me “infodependente”, consciente de que era um vício poderoso e abusivo, dadas as horas roubadas de um tempo tão precioso para atividades mais produtivas e auspiciosas. Estando eu no patamar de utilização do telemóvel de uma adolescente de treze anos, comecei por fazer um plano de utilização da “máquina” e a reeducar os meus atos. A pergunta que no início deste escrito sobressai, feita a uma adolescente, surge para mim com respostas reais. Quando decido que não tenho Internet, acabo por regressar aos bons hábitos de adolescente e jovem adulto: ler e escrever mais, conversar com tempo, estar sem olhar para o relógio e desfrutar dos espaços exteriores. A questão que se coloca agora, já no final desta reflexão, é a seguinte: e se a adolescente de treze anos quiser mudar a sua atitude perante a utilização do telemóvel, que hábito irá recordar? É este o principal problema nesta sociedade infodependente e consumista compulsiva de dispositivos tecnológicos. Ela não tem referentes sem eles, nunca viveu sem internet, começa a ter telemóveis já no berço e a ser distraída com vídeos do Youtube ainda sem saber falar… Esta geração nunca se preocupará em responder à pergunta inicial, nem tão pouco a considerará retórica, pois não se irá preocupar em refletir sobre isso. E se, neste momento, cabe aos pais que não tiveram telemóvel na adolescência sensibilizar os filhos para o uso abusivo dos mesmos, daqui por uns anos, na geração seguinte, esses filhos serão uns pais que nunca viveram sem telemóvel e não terão refentes para ensinar o quão bom era brincar na rua, à macaca, às apanhadas, ao lencinho… Culpabilizá-los não será nunca uma boa atitude, compreender que terão de fazer mais esforço do que eu para largar o telemóvel por umas horas é o caminho. Impera agora, a esta geração que viveu uma adolescência sem telemóvel e até sem telefone fixo em casa, como eu, que alerte, sensibilize e reeduque os seus descendentes para, aos poucos, experimentarem viver sem eles, indo aumentando esse tempo progressivamente, pois devemos todos evitar viver numa sociedade que “aproxima quem está longe e afasta quem está perto”.

Graça Rocha assina os artigos (In)certezas.