As Mudanças em Mudança na ESCOLA

“O novo tempo que se abre com o início do século XXI está imbuído de esperança. Será notoriamente um tempo de novas exigências sociais, onde a arte de «viver juntos» surge como sinónimo de cicatrização daquelas feridas que, no século XX, resultaram do império do ódio e da intolerância” (Carneiro, 2003). 

O registo escolhido para encetar este escrito confere principal enfoque à unidade terminológica “esperança”, que entendo ser o mote para a educação, no atual contexto de contínuas mudanças. O sentimento destacado é prioritário para o crescimento das nossas escolas. Esperança e educação formam a dicotomia perfeita para mudanças eficazes e construtivas. 

Nas últimas décadas, operaram-se múltiplas metamorfoses na escola, envolvidas por diferentes linhas de orientação ao nível político, ideológico e organizacional, que propiciaram o surgimento de uma escola dotada de novas responsabilidades, novas exigências e novos agentes educativos. Emergiu uma filosofia incomum do contexto educativo, com intervenientes diferentes, detentores de princípios e objetivos distintos, solicitando outras responsabilidades. A escola atual reclama a participação de todos e de cada um na construção de Projetos Educativos reais, visíveis e construtivos. Torna-se clara a preocupação das escolas em construir um documento que as identifique e que projete uma ação transparente no que diz respeito aos princípios e valores caracterizadores de cada comunidade educativa. Esta transparência será mais facilmente alcançada se todos os agentes forem chamados a intervir na construção do documento. Só a escola que pensa, que adota hábitos angulares de autorreflexão, em que intervêm todos os agentes educativos, movidos pelo diálogo e pela comunicação, consegue tornar-se num espaço procurado. Hoje, concebemos a escola como uma comunidade dotada de pensamento, identidade e perfil singulares, capaz de criar, projetar, agir, refletir e avaliar, na tentativa de definir e redefinir constantemente as suas estratégias na conquista do sucesso. Surgiu, assim, uma nova “gramática escolar”, que solicita uma regulação constante das opções tomadas e uma reflexão partilhada por todos os agentes educativos. 

Consciente de que o processo de mudança educativa e da própria cultura escolar é dinâmico e imprescindível, importa reforçar a ideia de que estas mudanças poderão comprometer o sucesso da instituição escolar se não lhes dermos tempo e espaço para mudarem o pretendido. Atualmente, a realidade escolar atual depara-se com a publicação de uma pluralidade de normativos impostos, por vezes infundados e, consequentemente, incompreendidos, capazes de gerar atitudes de descrédito face ao resultado das mudanças instituídas. 

Por outro lado, revela-se imperioso que os líderes compreendam o processo de mudança. Qualquer objetivo moral sem a necessária compreensão da mudança conduzirá a um “martírio moral”. Este objetivo moral emerge relacionado com as opções e os resultados. 

Uma teoria de mudança deverá promover a capacidade de refletir, concebendo que as inovações se realizam, efetivamente, nas aulas, nas escolas, nas reuniões e não nos textos oficiais. Cabe aos docentes uma atitude proativa, que permita mudarem as suas práticas, validando criticamente as propostas normativas e protagonizando uma autonomia profissional conducente à mudança. 

Graça Rocha

Graça Rocha assina (In)Certezas.