Para mim, não há como o verão. Mais luz, mais calor, e isso só por si já bastaria. Já nos tempos da escola, o objetivo-mor era suportar os três períodos até chegarem as férias do verão, as «grandes». Posto isto, é evidente que a situação do outono é bastante complicada. 
O outono, aparentemente, tem tudo contra ele. São os dias que começam a ficar mais pequenos, o frio a vergar aos poucos o calor, a chuva que, se começar a cair, há de ter dificuldade em parar. Os incondicionáveis do verão não têm como apreciar o outono. Até o inverno tem a seu favor o facto de no seu reinado os dias começarem a crescer.
No entanto, se perdoarmos ao outono a desfeita de nos empurrar para longe o verão, poderemos tirar muito proveito dele. A verdade é que nos outonos mais quentes (e até têm sido muitos) chegamos a ansiar por um pouco mais de frio para podermos saborear as castanhas que estão ali a assar à nossa espera, lançando aquele fumo branco que nos desperta não só o olfato, mas todos os outros sentidos. Castanhas ao calor não sabem bem, pois em grande parte são feitas para nos aquecer no outono, enquanto física e psicologicamente nos preparamos para o inevitável frio do inverno, esse a ser contornado já sem a ajuda do prestimoso fruto outonal. Por isso, secretamente, ansiamos por um pouco de frio, quiçá uma nuvem mais densa e lenta a cruzar o céu, o tempo bastante para devorar a dúzia delas embrulhada em papel, que já não é de lista telefónica, esse objeto que deixou de fazer sentido no nosso mundo. 
Penso, também, que grande parte do encanto da castanha se deve ao facto de ser fruto sazonal, impedindo-nos que nos fartemos dele e que por ele ansiemos durante largos meses. Um pouco como as cerejas, o fruto anunciador do verão.
Já alimentados pela castanha, começamos a saber desfrutar melhor da estação intermédia entre o verão e o inverno, os dois extremos mais amados e odiados. E, então, podemos reparar nas cores, no rubro das folhas que caem e correm pelo solo e do sol que se põe também em tons laranja, tal como na temperatura branda que ainda se aguenta nas horas de luz. E perceber, então, que há muito a aproveitar e viver na estação de «passagem», até porque não tarda nada está aí o inverno, esse sim com um feitio frequentemente insuportável.
(Foto Rui Azeredo)