Hoje o tema é educação.

Começo por partilhar que hoje o meu filho mais novo, de 21 anos, após dois meses de confinamento comigo, foi para casa da mãe. Vidas normais de pais separados. Fez uma escolha natural e responsável, dentro do bom senso de saúde publica que vivemos, e de salutar. Após ter convivido algum tempo com o pai, sentiu que chegou a hora de conviver este período de confinamento com a sua mãe. Tenho dois filhos, um de 23 e outro de 21. Quando começou o confinamento, fiz uma proposta confortável a ambos, de escolherem entre a minha casa ou a da mãe. O mais velho, que já perspetiva o seu Caminho próprio preferiu ficar onde estava e o mais novo ficou comigo dois meses e agora com a mãe. Toda esta história para falar das relações de pais e filhos. Algo que este confinamento trouxe à tona das nossas vidas. A educação de um filho é uma descoberta constante. Não existem livros que consigam de fato dizer o que é mais correto ou menos correto fazer com os filhos. Cada educação é uma educação. Por exemplo, que tenho dois filhos, transmiti os mesmos princípios aos dois, mas fui descobrindo que cada um escutava-os dentro daquilo que é a personalidade individual do mesmo. Não existem duas pessoas completamente iguais. 

E por isso, no crescimento como pai, fui percebendo que os meus filhos não são uma extensão de mim. Eles são apenas e só eles. Ser pai não é criar uma espécie de afluentes que alimentam o rio da nossa vida. Ser pai é ser um rio sem afluentes, que ensina a outros rios como se vive pela corrente, como transpomos os obstáculos, como aceitamos as margens de nós mesmos, como coabitamos com outros ambientes, como perceber as razões de umas vezes sermos mais límpidos e outras mais turvos, como entender a vida que permite que uns rios sejam mais longos no tempo que outros, como a mesma água não atravessa a mesma ponte duas vezes, como perceber que a certa altura da corrente, os rios separam-se mas não deixam de se ir cruzando de vez em quando…e por fim, receber na vida a foz do rio, a chegada ao oceano dos tempos infinitos. 

No fundo, e ainda assim usando outra alegoria, ser pai é ter uma caixa de ferramentas que vai entregando ao filho, para que este as interprete e as coloque em prática, à sua maneira, para construir o seu próprio caminho.

Não vejo, como pai, ser detentor dos meus filhos. Pelo contrário. Traz-me às sensações, uma espécie de felicidade, perceber que cada um torna-se responsável do seu próprio caminho. Individual e único. 

Todos aprendemos uns com os outros. Os filhos aprendem e apreendem muito dos pais. Mas isto não faz deles um estereotipo das ilusões dos pais. Como pais somos sim responsáveis de todo uma criação física e mental de seres humanos, que um dia mais tarde, refletirão nas suas vidas, o que viverem e experienciaram através dos seus pais. Logo, aquele que foi submetido a uma forte expressão de extensão de seus pais, será vítima desse comportamento, procurando sempre relações e experiências onde se possa projetar. Seja pelas exigências de perfeição, de competição constante. Seja pelo desporto onde os pais são mais jogadores do que o divertimento dos filhos, seja pelas amizades escolhidas pelos progenitores ou os cursos e profissões obrigadas. E as relações vão-se atenuando nas espirais de aulas e atividades extras que levam quase ao desespero filhos cansados dos pais e pais mergulhados no desespero das agendas híper preenchidas. Engraçado, estas últimas palavras trazem-me à memoria um certo dia, onde duas mães disputavam o que cada um dos filhos, ainda bebés, já sabia fazer. E eu questionei-as se tinham conhecimento de que o circo já tinha saído da cidade, logo não tinham necessidade de se digladiarem com as façanhas dos seus filhos e mais se divertirem com as mesmas, mas por forma a respeitarem a maravilha que vida lhes deu, a maternidade…pois, alguns devem adivinhar o que se seguiu… (risos).

E chegamos a um momento em que, pelo confinamento, pais e filhos são obrigados a conviverem 24 horas por dia. E agora? Onde estão as ferramentas? Dos pais e dos filhos? 

Penso, como pai… e todo este discurso é apenas e única visão de um pai e ser humano existencial deste planeta… Penso, dizia, que estamos num momento crucial para pais e filhos. Crucial porque grande parte do futuro das novas sociedades, está a decidir-se neste confinamento. É uma espécie de retiro, este desafio enorme à capacidade de pais saberem de fato ser pais, e de filhos serem de fato tratados como filhos… e acima de tudo, como indivíduos que pensam, que são aquilo que um dia os pais já foram, que formam uma consciência própria da qual dependerá a grande fatia das suas escolhas futuras… etc…

Logo, hoje, quando olharem os filhos, como pais, pensem… como veem de fato os seus filhos?

A educação é um processo e não um momento. Os filhos, reforço a minha ideia, são criaturas individuais. Não os vejam como fruto de um grupo de pessoas. Não os tratem como uma parte e comparativa de uma sociedade. Eles são individuais. Como cada um de nós. E se observarem, todos os animais veem assim cada filho que tem. Porque, sendo racionais, somos nós os únicos que pensamos sermos donos dos nossos filhos?

Fico feliz sempre que os meus filhos fazem, individualmente, uma escolha. E uma escolha para eles. Mostra-me que estão a construir todos os dias, como eu ainda hoje, uma consciência própria, e para isso é preciso ter a coragem de fazer escolhas, saindo daquela horrível zona de conforto, onde são os outros que fazem as escolhas por nós…aqui se dá início à perceção da liberdade individual. É maravilhoso.

E vocês… como estão a aproveitar os rios que correm ao vosso lado? Lembrem-se…a mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte…

E por hoje é tudo…até amanhã…

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