Calma, com isto não estou a querer dizer que a Comic Con é para totós. Quero, sim, dizer que este texto poderá servir para explicar aos leitores totós nesta matéria o que é a Comic Con.
Refiro-me, especificamente, à Comic Con Portugal, que ocorreu aqui há dias (6 a 9 de setembro de 2018) no Passeio Marítimo de Algés. Comic Con há muitas, sendo a mais famosa a de San Diego (EUA), cuja primeira edição já ocorreu em 1970. A «nossa» é bem mais nova, vai na sua 5.ª edição (as primeiras quatro foram na Exponor, no Porto, ou Matosinhos, ou Leça da Palmeira, como preferirem… distrito, concelho, freguesia.)


É incontornável… é um sucesso. Este ano, mais de 108 mil visitantes, batendo de novo o recorde, como sempre tem acontecido após a primeira edição. Mas o que levará tanta gente a este evento, que se considera a si mesmo um festival de cultura pop, onde todos podem ser o que pretendam ser? Muita coisa: estrelas internacionais de cinema e TV (este ano vieram Dolph Lundgren e Nicholas Hoult, por exemplo, e em edições anteriores passaram pela Exponor nomes como Cobie Smulders, Morena Baccarin, Daniela Ruah e Clark Gregg), autores de comicse BD (só nesta última edição passaram por lá Chris Claremont e Mauricio de Sousa – sim, esse mesmo, o criador da Mónica – que atraíram multidões quais estrelas de TV), cosplay(onde as pessoas se vestem das suas personagens preferidas, seja de filmes, jogos, livros, tudo), gaming, jogos de tabuleiro, exposições, etc., etc., etc. Tudo lá cabe. Nota: Não se inibam se um dia forem à Comic Con e pretenderem fotografar os cosplay, eles fazem gosto e fazem pose. Estão lá para isso, é a sua coroa de glória, serem apreciados pelos “civis”. E não se inibam também com os autógrafos.


Há sempre muitas sessões com autores de BD e escritores e são sempre boas oportunidades para um contacto mais direto entre artistas e fãs. Quem se dispuser a esperar sairá da fila satisfeito, com um desenho de um dos seus heróis, pois para quem não sabe há vários ilustradores portugueses a desenhar para editoras como a Marvel e DC Comics. E o melhor é que são por norma simpáticos e solícitos. E, depois, vêm sempre muitos estrangeiros de renome, também eles simpáticos e solícitos. Aviso, já que se fala de autógrafos. Quase sempre os autógrafos dos atores de cinema e TV são pagos, tal como as fotos que os fãs podem tirar.

Mas, principalmente, penso que as pessoas vão pelo ambiente e/ou atmosfera. Uma das atividades preferidas dos visitantes, penso que não errarei em afirmá-lo, é passear pelo meio de tudo, das pessoas, dos stands, das lojas, observando, conversando, trocando ideias… ou cartas.

Estive presente em todas as edições e nunca vi sequer uma discussão mais acesa, quanto mais pancada. Num espaço onde circulam por dia muitos milhares de pessoas, é obra. Aliás, basta ver diariamente a enorme fila ordeira à entrada do evento quando se abrem as portas para se perceber que o ambiente é pacífico. Basicamente, é uma festa onde as pessoas pretendem mesmo divertir-se e passar bons momentos. Desde famílias a grupos de amigos, passando por solitários, todos convivem num ambiente de festa permanente.

E não faltam atividades que lhes possibilitem isso mesmo, rentabilizando assim os preços dos bilhetes. Desde painéis para ouvir falar os artistas, sessões de autógrafos, apresentações de livros ou filmes ou séries, há de tudo. 


Mas um dos momentos altos do evento é, sem dúvida, a atuação da Lisbon Film Orchestra, que leva ao palco temas de filmes marcantes como Star Wars, E.T., Senhor dos Anéis, Piratas das Caraíbas, etc. O público faz fila, enche o auditório pelas costuras e aplaude freneticamente. Parece um concerto pop/rock, tal o entusiasmo, de músicos e plateia. 
Como já referi, na edição deste ano de 2018 houve 108 mil entradas no evento, pelo que quem contava com um fiasco na esperança de um regresso ao Norte pode, pelo menos para já, tirar o cavalinho da chuva. Houve algum azedume (e até raiva) nas redes sociais devido à transferência do evento da Exponor para o Passeio Marítimo de Algés, mas a verdade é que se trata de um evento de iniciativa privada. Privados vão para onde se sentem melhor, o problema está a montante. Toda a gente tem o direito a lamentar-se, irritar-se e queixar-se, mas as diferenças de tratamento Norte-Sul, Interior-Litoral, não começam nos privados. O Estado tem de dar o primeiro passo, o resto virá com naturalidade. San Diego é longe da capital Washington, certo?


(Fotos de Luana e Rui Azeredo)