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Missão Humanitária Guiné-Bissau | PPL

https://ppl.com.pt/causas/soga
O endereço acima indica uma Campanha para apoiar as várias causas da Soga na Guiné. Recordo que falamos de um projecto de sustentabilidade e crescimento.
Ajudar é dar a oportunidade. A si, aos outros.
A si porque tem a oportunidade de participar, mesmo que à distância, num projecto válido e sustentável.
Aos outros porque lhes permite colocar em prática os seus desejos.
Vamos a isto.
Faltam 3 dias.
Não falte.
Grato.

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O gato de Biarritz, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Algures no início deste século (ou milénio, se preferirem) encontrámos em Biarritz este gato, tal como o veem, e estragámos-lhe o dia. Foi sem querer, naturalmente, mas aconteceu mesmo. Aninhado no algodão fofo da montra da loja, entre brinquedos com os quais tão bem combinava, protegeu-se do frio de um dia de sol de inverno e acolheu de bom grado o calor que emanava do vidro. Encaixado entre o cão de madeira, o avião, os trenós, o peluche e as flores, o Gato de Biarritz parecia ele próprio um elemento decorativo. De tal forma que, entrando na loja, comentámos com o dono da loja que “le chat” ficava muito bem na montra. “Gato? Que gato?”, questionou o homem, típico dono de loja requintada de antiguidades, ou pelo menos tal como os imagino, com o seu lenço ao pescoço. Correu para a montra e enxotou prontamente o gato que, percebi então, era simplesmente um invasor. Desolados, e com a lição aprendida, saímos para a rua, onde nos cruzámos com o gato, que nos ignorou, nem sequer bufando, como era merecido. Fomos embora, na esperança de que ele ocupasse outra montra. Dado que, apesar do seu ar sonolento e passivo, nos pareceu um gato bem tratado, convenci-me de que ele iria encontrar outro pouso, de preferência onde não viesse um idiota estragar-lhe o descanso.

História verdadeira tanto quanto a memória me permite.

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Resignação…

Falar do Luís Miguel Rocha é falar, sobretudo, de um amigo.
Conheci o Luís através do meu segundo livro, “Os Senhores da Vida e da Morte”, quando detinha a editora Mill Books.
Mas se foram os livros que nos ligaram, foi acima de tudo, a cumplicidade, a confiança, as ilusões, os sonhos e as óptimas conversas e desabafos que tínhamos.
Podíamos estar bastante tempo sem falarmos, que sabíamos que o outro estaria sempre ali, do outro lado, pronto para conversar, rir e receber a partilha.
O Luís, que escreveu sempre dentro de um estilo literário que nunca foi o meu preferido, queria imenso escrever sobre outros géneros, saindo um bocado do que o celebrizou, onde ia sentindo alguma desmotivação.
“A Resignação” é o exemplo. Ele segredava que estava cada vez mais difícil encontrar o rumo da história. Mas tentava… E foi conseguindo…
Por isso, mesmo sem ler, sei que a sua parte estará bem escrita, que a história terá o seu cunho, mesmo aquela que os autores Rui Sequeira e Porfírio Silva escreveram. Não coloco em causa, longe disso, a qualidade dos intervenientes no términus desta obra e em toda a sua dedicação para a mesma. Quer literária, mas muito também pela amizade que tinham com o Luís, emocional. Reitero que esta será das melhores homenagens que se pode fazer ao Luís.
Mas…sim incluo o meu, Mas, aqui… esta obra é a Resignação do Luís ao facto de estar preso a um estilo que acabou por lhe trazer as algemas da literatura.
Um escritor precisa de abdicar das fronteiras dos géneros, para se rever na sua imaginação. Mas os populismos e as leis de um mercado que, como todos os outros, tem as suas exigências, acabam sempre por ditar fronteiras e demasiados limites na capacidade criativa de um escritor.
E os thrillers são um dos géneros. Em especial os que se entregam às questões religiosas e morais. Pensem num Dan Brown escrever um puro romance ou um livro sobre um homem que deambula entre a metamorfose de Kafka e os delírios Socráticos do Ser? Acreditariam que seria Dan Brown, se fosse assinado por ele? Acham que teria o mesmo êxito que teem os seus livros atuais?…duvido… e o grande exemplo é uma JK Rowling… ou diria Robert Galbraith quando quis se aventurar por outros géneros…
Mas o Luís quis trazer a Resignação de Bento XVI. Ou a sua Resignação?…
Mas o que interessa mais, e certamente terão a oportunidade de desfrutar disso, é o regresso a título póstumo, do Luís Miguel Rocha.
Não irei entrar aqui em sentimentalismos ou saudosas lembranças, porque essa é uma parte que reservo para mim, mas diria que gostava de ver publicados, outros textos do Luís. Não deste estilo, mas dos que moldam uma qualidade de escrita reconhecida.
Assumo que não irei ler este novo livro. Apenas porque não aprecio este género literário, e apenas falo do thriller religioso. Mesmo apesar de já ter lido e gostado de alguns anteriores a este. E foram nesses poucos, que encontrei a qualidade e a diferença da escrita do Luís. Mas cansa-me os géneros literários demasiado redondos.
Mas leiam-no e procurem, quem o conheceu por livros ou pessoalmente, encontrar o Luís nessas páginas. Ele irá gostar, estou certo.

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À conversa com Pedro Chagas Freitas, exclusivo do Et(h)er dos Dias.

Et(h)er dos Dias – Como chegas aqui, Pedro?
Pedro Chagas Freitas – Trabalhando, escrevendo, esgravatando. Sem parar. Todos os dias.
 
ED – Quando é que descobriste que era isto, a escrita, que de facto querias para ti?
PCF – Escrever está em mim antes de saber escrever: todos escrevemos quando somos crianças e contamos histórias. Isso já é escrever. Inventar, fazer de conta que. E eu escrevo desde aí.
 
ED – Tu orientas cursos de escrita criativa (sou suspeito em falar deles…;)). Já ajudaste a descobrir muitos escritores? Ou achas que as pessoas te procuram nesses cursos para se enriquecerem na escrita, mas com outros fins?
PCF – Cada pessoa tem os seus objectivos. O meu é o de, dentro do que posso dar, entregar a possibilidade de treinar, de testar, de desbravar novos caminhos na escrita. Dá trabalho, sim; mas dá ainda mais gozo.
 
ED – Fala-nos um pouco o que te move quando escreves um livro?
PCF – Move-me escrever.  É uma necessidade. Tenho mesmo de escrever. Mas fascina-me sobretudo o “e se?”. O conceito. Imaginar a história, a intriga, a ligação entre as personagens. E depois a forma: como vou contar esta história? Quem a vai contar? É maravilhoso. Maravilhoso.
 
ED – O Pedro Chagas Freitas escritor é um ser de paixões fortes? Achas que as pessoas têm carências desse tipo de sensação?
PCF – As pessoas são pessoas. E as pessoas amam estar apaixonadas — é para isso que aqui andamos. Uma pessoas sem paixões não é pessoa nenhuma.
 
ED – Tens explorado muito o Amor nos teus últimos livros. E os teus textos sobre o amor tem corrido mundo. Pensas que continua a ser uma busca incessante dos seres humanos, o amor?
PCF – Somos amor. O amor é a melhor coisa do mundo — pelo menos até prova em contrário.
 
ED – E pego no Amor, porque lançaste um novo livro da série “Prometo”, este que tem o título de “Prometo Amar”. Gostávamos que falasses um pouco desta série e deste teu novo livro.
PCF – É uma série de livros que têm um denominador comum: são um catálogo de pessoas. Das mais diversas idades, com as mais diversas experiências. Construir essa pessoas preenche-me por completo. Essa viagem a cada uma delas, com as suas falhas, as suas insuficiências, é a viagem que todos fazemos. E as melhores viagens são as interiores. Sempre.
 
ED – Achas que um escritor pode ter um papel importante na construção da consciência humana?
PCF – Todos os que, de alguma forma, chegam a muitas pessoas têm esse papel. Eu tanto não pensar muito nisso quando escrevo. Escrevo o que me apetece. É a minha forma de rebeldia.
 
ED – Disseste numa entrevista que um bom livro é aquele que mexe contigo. Se não o conseguir, isso é mau. És muito exigente face aos livros dos outros? E aos teus?
PCF – Só tenho essa exigência: seja num livro, num filme, numa música. Nada mais. Se mexe comigo é bom, se não mexe é mau. Aplico isso ao que leio e ao que escrevo, claro.
 
ED – Fala-nos um pouco do Pedro Chagas Freitas leitor. O que andas a ler, o que gostavas de ler…
PCF – Na poesia, ou prosa poética, regresso sempre a Herberto, a Al Berto, a Ruy Bello, a Rui Nunes. Na ficção, ando sempre à procura de novas experiências. Mas acabo também por regressar a Saramago, Camus, Faulkner, …
 
ED – Tenho aqui duas perguntas de leitores(as) teus. A primeira é, o que é que o Pedro não Promete? A segunda é, afinal o Pedro é ou não Deus?
PCF – Não prometo desistir de amar. Custe o que custar hei-de sempre fazer tudo para amar. Para encher de amor quem me ama. E sim: sou Deus dos meus passos. Isso está na minha mão. E já não é pouco.
 
ED – E pegando neste tipo de desafio de leitores, qual é a pergunta que nunca te fizeram e que tu gostavas de responder?
PCF – Se sou uma pessoa feliz. E sim: sou. Felizmente.
 
ED – Termino com dois desafios;

  • Imagina-te perante uma multidão de mulheres. Elas querem saber o que precisam para serem amadas. O que lhes dirias?

PCF – Para amarem. E isso aplica-se a homens e a mulheres. Sempre. Apesar de tudo: amar.

  • Nomeio-te o director da biblioteca do Et(h)er dos dias. Tens uma encomenda de livros para fazeres. Os que quiseres. Quais as escolhas?

PCF – Milhares deles; mas aqui ficam cinco — três incontornáveis e outros dois menos conhecidos:
 
O Estrangeiro, de Camus.
A Armadilha, de Rui Nunes.
Os Cus de Judas, de Lobo Antunes.
Tudo Pela Minha Mãe, de Celina Lopes.
Do Choupal à Cerca Moura, de Maria João Resende.
 
 
 
NOTA: Esta entrevista é redigida sem cumprir os requisitos do acordo ortográfico.
 

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A Viagem de Lipório Eucristes. parte 1.

Lipório Eucristes tivera sempre uma vida sem vida nenhuma. Fechado dentro de uma casa isolada nos fins do mundo, nunca se atreveu a sair daquelas paredes amorfas. Nasceu por entre o tempo do sol que se levanta e aquele em que o mesmo se deita. Não houve tempo que contasse o seu tempo. A sua mãe fechou-o desde logo no cadafalso, para que não fosse comido pela vida dos homens. Tinha esperança que Lipório pudesse sobreviver à leviandade natural da vida, a morte dos homens. Foi alimentado pelos ratos que lhe traziam pequenos pedaços de comida e queijos fedorentos.
O seu pai, nunca o vira. Nem sabe se veio ao mundo por um pai. Lipório apenas descobriu o resto da casa quando escutou gritos vindos do andar de cima. Conseguiu romper a porta e ver pelas primeiras vezes, a luz que entrava. Deu com sua mãe descalça de vida e já entregue aos murmúrios do tempo sem tempo. Alimentou os animais que já se alinhavam nos corredores com o corpo dela. E passou a viver na parte de cima do mundo. Mas nunca saiu.
Passaram anos e continuou sem nunca sair. Lá fora havia dia e havia noite. Havia o ruido de água que batia nas janelas, de relâmpagos que iluminavam a noite e havia o sol…um calor que penetrava sorrateiremente toda a casa. Lipório tinha medo daquele calor súbito que lhe inundava a casa. Corria para fechar as velhas cortinas de pano. Mas ele nunca se escondia. O sol continuava a entrar e Lipório nesse instante fugia para onde a escuridão era reino e o frio o afastava qualquer calor.
Mas certo dia, Lipório Eucristes foi subitamente confrontado com a chegada de um novo hospede. Na porta embateu uma mão de ferro. Abriu-a sem força e fechou-a quase a destrui-la. Entrou e cada passo era fulminado. Deixava um rasto de soalho rasgado. Entrou na sala, onde Lipório tremia no receio, atrás de um velho sofá de cambala. Este foi afastado num folego e dos seus baixos olhos repara numa perna de ferro, duas aliás, um corpo fundido em ferro sujo, dois enormes braços com o ferro fundido e uns olhos de luz. Parecia-lhe que o sol havia entrado ali duas vezes. E mais assustado ficou quando esses mesmos olhos veem na sua direcção e lhe fixam todo o corpo. Um exame que lhe deixa a marca do pavor, espalhado pelos restos de roupa.
Lipório não sabia falar. Apenas ruminava sons que deixava escapar pela boca sem palavras. E assim o fez,
– O que dizes? – aquele sabia alguma coisa – que barulho estranho é esse?
Mas sem resultado nenhum nas respostas. Aquele monte de ferro aproximou-se mais e tocou-lhe. Era feito de pele, tinha ossos dentro e pedaços de carne, músculos, gorduras e entranhas arrepiantes.
– O que és tu?
E as respostas continuavam silenciadas pelo ruminar. Então o monte de ferro resolveu falar,
– Venho buscar a minha nave. Deixei-a aqui para escapar aos terríveis Grolondios, inimigos de morte que a morte nunca levou. Não sei quem és, mas se quiseres sair, parte e não leves nada. Mas se quiseres ficar, deixa-te quieto por esse lugar e não te metas pelo meio do meu andar.
Voltou costas a Lipório e subiu as escadas. A curiosidade era medrosa, mas queria saber o que era aquele ser que tinha corpo de metal e dizia coisas sem perceber.
Mas conseguiu ir no seu caminho e quando chegou perto do telhado, já via mais luzes e luzes, que saiam das paredes. O ferro mexia-lhes e movia um instrumento estranho. Era feito também de ferro e saía do chão. O mesmo chão que se começou a movimentar. Lipório soltou gritos de medo. Correu e desceu as escadas. Escondeu-se por baixo da mesa e tremeu até todo aquele barulho passar. Lá fora o céu movia-se, o sol entrava e saía e havia um balançar. Conseguido chegar junto de uma janela, viu que a terra ficava lá em baixo. Olhava as nuvens, os pássaros que voavam, tudo sem perceber o que era e o que acontecia. Resolveu regressar às escadas. Quase de corpo rastejante, foi junto do monte de ferro. Este observava, junto de uma janela, as estrelas que já chegavam. Lá fora umas enormes ventoinhas rodavam sem parar. A noite chegava ou era a terra que fugia. As nuvens ficaram lá em baixo e a escuridão abraçava. Agora não conseguia saber onde estava. E tudo se precipitou com um mover alucinado, quase hipersónico, mais rápido e mais rápido ainda.
Tudo voltou a abanar, e Lipório agora agarrou-se a uma das enormes pernas do ferro que não se mexia. Sentia o vomito nos dentes, o coração a traulitar nos pés. Os olhos queriam fugir pelas orbitas e a orbita fugia dos olhos. Até tudo voltar a parar. E aqui Lipório Eucristes levantou-se e espantou-se. Já não via um sol, mas uns cinco a brilhar. Havia pequenas luzes que se moviam e moviam. E muitas casas que flutuavam. Estranho perceber que por cima de montanhas encrustadas nos vales, as casas voavam com pequenos pedaços de terra agarrados. Havia hélices de tamanhos abomináveis que giravam com a força do ar.
– Chegamos. De volta a casa. Handlender. Lar.
 
– Continua –

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Umas luzes sobre tradução e revisão, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

 
Dado que a minha formação profissional foi outra, jornalismo, até poderia não ser a pessoa mais indicada para estar a dar aqui umas luzes sobre o que é a tradução e também a revisão literária. No entanto, já levo uns anos de experiência, com umas boas dezenas de traduções e revisões na «mala», e, por isso, acho que podem ficar minimamente descansados.
Para quem não sabe, ou nunca pensou, como funciona o processo de tradução de uma obra literária, aqui ficam então algumas luzes; da revisão «falarei» mais à frente neste texto, dado que se trata de uma fase posterior no processo de elaboração de um livro.
Uma editora por norma tem uma carteira de tradutores (trabalhadores independentes) com quem trabalha habitualmente e a quem encomenda as suas traduções. Para isso, pode ter em conta, quando possível, o facto de o tradutor já conhecer a obra do escritor em causa (pode ter trabalhado outros livros do autor), por já haver uma útil familiaridade, ou de estar habituado ao género literário do livro em causa. Havendo disponibilidade e interesse da parte do tradutor, é-lhe enviado o original. Hoje em dia, este original, por norma, é em PDF, sendo cada vez mais raro haver traduções feitas a partir de livros em papel – nem queiram saber o estado em que por norma ficam esses livros, às vezes até com blocos de páginas arrancados para serem mais fáceis de manusear. E, então, o tradutor começa a trabalhar no Word(ou outro processador de texto), por norma pressionado por um prazo apertado.
Um tradutor deve ter sempre em conta a «casa» para quem trabalha, pois entre as editoras há sempre pequenas «divergências» em termos de estilo. Por exemplo, que tipos de aspas usar, deve seguir o artigo antes do nome nos diálogos (ou até na própria narrativa, especialmente nas obras para públicos mais jovens), respeitar ou não o novo acordo ortográfico, os nomes das personagens devem ser traduzidos, 8thAvenue ou Oitava avenida ou 8.ª Avenida, etc.
Depois, há situações e dúvidas com que nos vamos deparando a cada passo e que às vezes é preciso resolver na hora. Aí, sigo a regra que me ensinaram no dia em que comecei a trabalhar nesta área: «Rui, usa o bom senso.» É uma boa regra para se fugir ao aperto do formalismo que tende a afetar quem teve formação na própria área da tradução. Eu, enquanto tradutor, perdi muito (nem sei bem quanto) por não ter estudado na área, mas ganhei alguma liberdade para tornar as «coisas» menos formais, o que em certos casos é vantajoso. A falta de formação específica também me permite nunca tomar nada por garantido, o que me leva a fazer inúmeras consultas antes de me decidir. Nem imaginam quantas vezes eu estava errado em relação a algo.
Um dos maiores tropeções que um tradutor pode dar é traduzir à letra algo que tem outro sentido subjacente. Traduzido à letra até pode fazer sentido, mas perde-se o requinte da ideia original do escritor, com prejuízo para o próprio mas, principalmente, para o leitor. Uma frase, ou ideia, vulgar pode afinal ser uma preciosidade, que não deve permanecer oculta.
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As «outras» línguas
O mais comum é traduzir do inglês para português, seguido pelo castelhano e pelo francês, mas também se faz, naturalmente, a partir de outras línguas menos comuns em Portugal, como o árabe, o hebraico, o polaco, o sueco, etc. A dificuldade, aqui, reside em encontrar quem tenha conhecimentos para traduzir essa língua para português. Há uma alternativa, na qual os leitores mais atentos já poderão ter reparado por vir referida na ficha técnica de um livro: «Traduzido a partir da edição inglesa/francesa/espanhola por…» Não é a solução ideal (uma tradução de uma tradução perde sempre algo pelo caminho), mas por vezes pode ser o próprio escritor a recomendar uma tradução por ser aquela que no seu entender mais respeita o original.
Outra dúvida que poderá afetar os leitores é saber como é possível uma obra em língua estrangeira ter edição simultânea em Portugal e no seu país de origem. É o caso, por norma, dos livros de Dan Brown. Na verdade, é simples de explicar e de perceber. A obra é entregue antecipadamente ao editor que, quando o tempo escasseia, a distribui por vários tradutores em simultâneo. Cada um trabalha a sua parcela de livro, que depois serão reunidas, idealmente supervisionados por uma única pessoa, para tratar da uniformização de estilo e linguagem. Por norma, os envolvidos neste tipo de trabalho assinam um acordo de confidencialidade, para evitar que algo transpire antes do tempo para o exterior.
 
O melhor amigo dos tradutores
O revisor, papel muitas vezes ignorado que com frequência nem sequer é referido na ficha técnica, é o melhor amigo do tradutor. É o revisor que aperfeiçoa o texto, apanha as gralhas, descola o texto do original (está mais distante e tem mais facilidade em fazê-lo), corrige erros e interpretações mal feitas. A verdade é que quando um leitor lê um livro e aprecia a tradução não consegue perceber até que ponto foi a intervenção do revisor. Por exemplo, sei de um caso ocorrido há uns anos de uma tradução premiada que, na verdade, não era mais do que mediana. A revisão sim, fora excelente, mas o mérito foi todo para a tradutora. Para a revisora? Nem um agradecimento.
O ideal (possível e viável) é fazer duas revisões à tradução, podendo uma ser feita ainda em Worde outra já em papel, ou PDF, e paginado. Há quem defenda que deverá ser a mesma pessoa a fazer as duas, para limar o que deixou escapar na primeira (há sempre algo que escapa), mas também há quem opte por revisores diferentes para que, com outros olhos, um veja o que escapou ao primeiro. Ao contrário do que acontece com as traduções, há editoras que fazem as revisões internamente, socorrendo-se apenas ocasionalmente de revisores externos. Depende muito do fluxo de trabalho com que se deparem na altura.
Agora, sempre que ler um livro traduzido, já vai saber parte daquilo por que ele passou antes de lhe chegar às mãos.
 

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Isabel Rio Novo em conversa exclusiva com o Et(h)er…a escolha para o dia do Livro.

Hoje o Et(h)er fala com Isabel Rio Novo.
No dia do Livro, nada como conversarmos um pouco com uma das grandes promessas da literatura portuguesa.
Nasceu no Porto, decorria o ano de 1972.
Doutorou-se em Literatura comparada, e é docente em Escrita Criativa e outras áreas da literatura e cinema.
Publicou a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Em 2005, o seu romance A Caridadeé distinguido pelo Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.
Mas é como finalista, por duas vezes, que Isabel Rio Novo nos trouxe os seus dois últimos livros. Rio do Esquecimentoe A Febre das Almas Sensíveis, o seu último.
E sendo o dia do Livro, acho que tem de ser do ponto de vista do escritor, e da sua criação que vamos começar a conversa,
Et(h)er – Quando começaste a escrever as primeiras folhas em branco, percebeste desde logo que era este o caminho que desejavas?
Isabel Rio Novo – Sim. Comecei a ler muito cedo, graças às circunstâncias (não tinha irmãos, mas vivia rodeada de livros e tive uma tia-bisavó disponível para me ensinar). Ao mergulhar no mundo dos livros, depressa percebi que queria escrever, queria para mim essa forma de me relacionar com o mundo.
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E. – Quais as diferenças entre a Isabel Rio Novo escritora e a Isabel Rio Novo que leciona Escrita Criativa?
IRN – Espero que sejam poucas. Nas sessões (prefiro isso a chamar-lhes aulas) de Escrita Criativa que oriento (e não leciono), procuro colocar-me ao nível dos outros participantes no grupo. Sou apenas, em princípio, alguém com mais leituras, mais vida, mais experiência de escrita e mais habituada a praticar um certo distanciamento crítico em relação ao que escrevo. E também mais habituada a “publicar”, no sentido mais amplo do termo, isto é, a submeter à apreciação dos outros aquilo que escrevo.
 
E. – Tens uma perspetiva muito ampla quanto ao ato da escrita no seu todo. Como achas que uma pessoa sente que se descobre como escritor, com vontade e engenho para construir histórias?
IRN – Suponho que esse processo de descoberta varie muito de pessoa para pessoa. Alguns escritores reconhecem desde muito cedo a sua vocação. Outros descobrem-na mais tarde. Alguns tentam resistir-lhe. Outros, pelo contrário, perseguem-na com afinco. Um descobrem a vontade, mas, até o engenho estar amadurecido, têm de trabalhar muito… Enfim.
 
E – Quando começas cada livro, tens já a história toda concebida e deixas correr as palavras, ou tens uma conceção inicial e depois tudo é uma descoberta?
IRN – Tenho normalmente uma boa ideia geral da história, de como ela acaba e começa. Ah, e o título. Só quando chego ao título definitivo estou verdadeiramente a escrever. Aí, sei que o livro acabado é uma questão de trabalho e de tempo.
 
E – Tens uma obra muito rica. O que procuras provocar no leitor com a tua obra?
IRN – Trazê-lo a visitar o meu mundo. Emocioná-lo. Levá-lo a viajar e apresentar-lhe os meus «amigos à distância». Creio que tenho a capacidade de encontrar a brecha por onde a imaginação consegue iludir as circunstâncias do presente para chegar a uma época outra, não a que foi, naturalmente, mas a que construo na ficção. Um exercício de fantasia, até porque o fantástico é outro dos meus apelos, mas onde também entra pesquisa e trabalho.
 
E – No teu último livro recuperas uma fase muito conturbada e doente da História de Portugal no século passado, e contas uma historia à volta da tuberculose. O que pretendeste transmitir com esta relação emocional entre doença-amor-passado-saudade? Se é que ela te faz sentido, claro.
IRN – Uma parte importante do enredo desenrola-se na década de 40, no Caramulo, na altura uma reputada estância sanatorial onde se internavam os doentes de tuberculose. Hoje, a maioria dos antigos sanatórios está em ruínas. No livro, há uma rapariga que visita essas ruínas, recolhe despojos, sobretudo papéis, e que se interessa pelo tema porque está a preparar uma tese sobre escritores oitocentistas vítimas da tuberculose, a tal febre das almas sensíveis. O livro também dá conta deles. Eu não tive tanta sorte como ela, não encontrei tesouros nos escombros, mas foi durante uma visita ao Caramulo com o Paulo, em agosto de 2016, e graças às impressões fortes que o local exerceu em mim que resolvi, definitivamente, escrever o romance. Por isso, sim; se quiseres, todo o romance gira em torno de emoções.
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E – Como escritora, alguma vez te sentiste envolvida (de que forma for) com alguma personagem? Achas que os escritores por vezes se podem envolver em demasia no mundo da sua própria imaginação?
IRN – Sinto-me constantemente envolvida com as minhas personagens, mas julgo que nunca em demasia.
 
E – Uma pergunta que os leitores adoram sempre ver respondida… a inspiração. Onde anda a tua?
IRN – Anda por todo o lado. Muitas vezes basta uma palavra descoberta ao acaso numa página lida, uma ideia trocada com o Paulo, que também é escritor, um retrato, um papel antigo… Às vezes há uma ideia vaga que se vai instalando, se vai definindo, até que o gesto da escrita se torna inevitável. É verdade que pesquiso, leio, estudo, mas o clique inicial é um pouco misterioso.
 
E – E como leitora, o que esperas de um livro?
IRN – Que seja um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que me transporte numa viagem emocional. Onde eu encontre uma personagem de quem gostaria de ser amiga. Onde haja frases que correspondam ao que eu sempre quis dizer, mas nunca consegui dizer tão bem. Que me arrebate nem que seja pela beleza da linguagem. Enfim, tenho um conceito abrangente do que é “um bom livro”, que me torna interessada por muitos autores, géneros, estilos e correntes.
 
E – Para onde vai esta Isabel Rio Novo?
IRN – Muito provavelmente, vai regressar ao seu cantinho-escritório, abrir o computador e repegar na escrita do livro que tem em mãos. Ou seja, vai continuar a trabalhar.
 
E – Para terminar tenho estes dois desafios para ti.

  • Tens neste momento um jovem em busca do sucesso, achando que escreve umas coisas, e deseja de “morte” aprender a ser escritor. O que lhe dirias?

IRN – Que não se apresse a publicar. Que viva. Que escreva sempre. Que leia muito. Sobretudo, isso. Que leia muito, que experimente coisas novas, diferentes. Depois, ao publicar, dir-lhe-ia que é fundamental aprender a ser lido. Saber escutar as críticas, mesmo as que lhe pareçam absurdas, sem se sentir tentado a responder com azedume, mas sem se desviar das suas convicções.
 

  • Nomeio-te a diretora da livraria do Et(h)er. Tens uma encomenda para fazer para o verão que se aproxima. Que livros queres encomendar como imprescindíveis?

IRN – A grande tentação seria encomendar uns quantos livros entre os que ainda não li, só para ter a oportunidade de o fazer… Mas, enfim, quando a minha consciência de livreira viesse ao de cima, encomendaria a obra completa de Machado de Assis e de Agustina Bessa-Luís, porque são bem maiores do que qualquer verão.
 


 
Grato Isabel. Muitos sucessos e o Et(h)er aguarda as novidades de Isabel Rio Novo.

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Heróis do Ar, por Jaime Oliveira Martins. Entrevista exclusiva.

Jaime Oliveira Martins acabou de lançar o seu terceiro livro, “Heróis do Ar”, pela Cultura Editora.
Uma obra que vem fechar uma trilogia que começou com “Fontes de Guerra, Fontes de Paz” e que pelo meio surgiu “Mar Liberal”.
Após as apresentações de Leiria, sua terra, Moimenta da Beira, Lisboa e Porto, chegou a vez de Coimbra.
O Et(h)er esteve lá e assistiu a uma casa cheia de amigos, leitores e curiosos que entravam e saíam no auditório da Fnac.
A apresentação ficou a cargo do Tenente-Coronel Piloto-Aviador Monteiro da Silva, que começou por referir que após dois livros em que Jaime Martins atravessou a guerra por terra e mar, faltava o ar. “O ar aparece por ultimo, mas a aviação é a mais importante…”.
O ar que envolve conflitos presentes e passados, e decidirá muitos futuros. Mas no ambiente onde Jaime decorre com a historia, a primeira grande guerra, os pilotos segundo este militar, tinham uma conduta de regras, de respeito e de uma ética consciente.
O grande exemplo era a Fraternidade, palavra tão badalada na génese da Republica Francesa. O Tenente-Coronel Monteiro da Silva chega mesmo a ler um pedaço do “Heróis do Ar”, onde o autor segue com precisão essa mesma conduta que prevalecia na altura entre os aviadores, mesmo que inimigos.
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Jaime Oliveira Martins concedeu uma pequena entrevista, em exclusivo, ao Et(h)er, sobre este novo livro,
 
Et(h)er – Fala-nos do que se trata este “Heróis do Ar”.
Jaime Oliveira Martins – O “Heróis do Ar” trata-se de um romance Histórico que nos fala da implantação da República e dos conturbados anos que se seguiram, aproveitando o mote de coincidir com os primórdios da aviação militar em Portugal. Mantendo o rigor histórico, personagens ficcionados interagem com personagens reais,  levando o leitor a levantar voo num Farman 40 em 1917, em Vila Nova da Rainha, e a aterrar em Monte Real num F16 em 2009. Pelo meio, vive as marcas da guerra, os encontros, desencontros amores e paixões dos diversos protagonistas.
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E. – Na conversa que tivemos anteriormente (a), referiste que este livro fecha uma trilogia em que quiseste honrar heróis. Mas achas que os mesmos terminam neste livro?
JOM. – Não terminam neste, nem em nenhum livro, pois fazem parte da nossa memória colectiva.
 
E. – Que pesquisas fizeste para este livro?
JOM. – Muita bibliografia, fontes primárias e fontes secundárias. Algumas horas passadas em bibliotecas, museus e Arquivo Distrital de Leiria. Também julgo importante as visitas feitas aos locais, às trincheiras da Flandres, à procura das vivências e as experiências daqueles homens. Para tal, cheguei a efectuar um voo num avião bilugar com 66 anos, que foi o mais próximo da época que encontrei em condições de voar.
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E. – Na apresentação de Leiria, a primeira, tiveste o cuidado em oferecer um livro à primeira mulher a pilotar um F16. Queres explicar o porquê dessa tua iniciativa?
JOM. – Foi entregue um exemplar do livro ao Sr. Comandante da Base Aérea nº 5 em Monte Real, de que será fiel depositário, e se for o caso, entregará ao seu sucessor, e assim sucessivamente, até que este exemplar seja entregue à primeira mulher portuguesa a pilotar um F-16.
Espero que este gesto seja também um estímulo para todos os jovens, homens ou mulheres, para que procurem concretizar os seus sonhos, não se deixem dominar por preconceitos  e abracem os desafios de uma carreira que faz dos homens do ar seres únicos.
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E. – Neste livro onde está o Jaime Martins? Num avião, num herói, numa simples personagem?
JOM. – Em todo o lado, desde o pai que procura aconselhar um filho, ao filho que, embora respeitando o pai, segue o seu rumo, num nadador-salvador dos anos 80…
 
E. – Fazes neste livro uma homenagem aos combatentes da primeira grande guerra, mas também ao único português fuzilado em França, durante esse conflito. Sentes que dás um contributo ao exaltar desses homens que tanto deram de si em prol da Liberdade?
JOM. – Sem qualquer menosprezo pelos actos heróicos, que os houve, os heróis têm sido exaltados ao longo dos tempos. Preferi dar voz àqueles a quem a voz tem sido calada, vítimas das escolhas e opções de uma oficialidade que não tinha qualquer relutância em mandar os seus homens para a morte, ou mesmo executá-los a título de exemplo.
 
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E. – Como tem sido estes primeiros dias do “Heróis do ar”?
JOM. – Alucinantes, mas gratificantes com as salas das apresentações cheias, e com os primeiros retornos de leitores, muito estimulantes.
 
E. – Para onde gostavas que voasse este “Heróis do ar”?
JOM. – Gostava que este Heróis do Ar voasse dando um contributo para o melhor conhecimento da nossa História. Que os leitores de forma descontraída, agradável e emocionante, consolidem esse conhecimento, e sejam levados a reflectir. Gostava ainda que constituísse um estímulo aos jovens, para perseguirem os seus sonhos, e nunca desistirem de sonhar, dominados por estigmas, dogmas ou preconceitos.

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Grato Jaime, e ficamos à espera de mais livros e mais histórias.
Abraço