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(Re)visão

Sucesso, onde começa?

Quando andava na escola primária, a minha professora costumava pedir para sublinharmos as palavras difíceis, sempre que liamos um texto na aula. Não faço a mínima ideia se a palavra sucesso terá ou não aparecido em algum texto ao longo daqueles preciosos quatro anos e também não consigo afirmar com segurança se a sublinharia ou não.

Muitos anos depois da escola primária, além de dar conta que o tempo voou depressa demais, dou também conta que a palavra sucesso é hoje uma daquelas que merece ser sublinhada ou até mesmo sombreada com uma daquelas canetas fluorescentes da moda. De facto, o sucesso é algo extremamente difícil de ser definido.

Será muito pouco dizer-se que ele é apenas uma consequência de alguma coisa pela qual lutámos e dizer-se que ele é o contrário do fracasso ou o resultado da persistência. Será também insuficiente dizer-se que o sucesso é apenas a base da confiança ou o resultado de um negócio bem-sucedido, reconhecimento ou recompensa material.

A palavra sucesso, além de difícil de ser explicada, será demasiado grande para conseguirmos definir onde começa e onde acaba, onde está e onde não está, quando faz parte da vida real ou apenas dos sonhos. Complica-se ainda mais quando todos vivemos e sonhamos de forma diferente, começamos de forma diferente e, sobretudo, damos importância a coisas diferentes.

Na verdade, sublinhamos a palavra sucesso da forma como muito bem entendermos e quisermos.

Da minha parte, a idade foi-me ensinando a sublinhá-la a todas as horas do dia, do mês, do ano. Não apenas porque me lembro da escola primária, mas porque enquanto vou tentando encontrar o seu significado, recebo telefonemas de pessoas de quem gosto e que me convidam para um café ou para almoçar ou jantar. Também porque o meu médico, depois de um exame, me vai dizendo que talvez não morra amanhã e isso vai-me permitindo sorrir mais algumas vezes, também por ver outros a sublinharem a mesma palavra exatamente à mesma hora, sorrindo também.

Hoje acordei, estava um sol maravilhoso e não me doía parte nenhuma do corpo. A meio da manhã bebi um café, comi uma nata e enquanto sublinhava a palavra sucesso fui-me lembrando de sublinhar também a palavra afeto. 

Será que o sucesso começa no coração?

O José Rodrigues assina os artigos (Re)visão.
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um (des)conto de natal…

Esta história não é tão comum como as outras.

Quero partilhar convosco aquele dia. 

O dia em que caíram bolas de natal. Sim, caíram do céu azul, riscado com algumas nuvens sem serem profundas. Levemente foram caindo. Vermelhas, azuis, amarelas e roxas. Eram estas as cores que desenhavam todo o cenário.

Era estranho pensar que bolas de natal pudessem cair em vez de chuva. Como se fosse chuva num dia de sol. Mas aquele fenómeno perdurou durante horas. Horas que pasmaram todos os habitantes da pequena aldeia de Funnerbrunch.

Estamos no meio de uma cordilheira de montanhas. Um rio que se deliciam entre curvas, florestas que se escondem nas encostas, culturas que sobem os declives. As casas são de xisto. Pequenas janelas escondem interiores modestos e as portas braveiam com os ventos que descem as vertentes. As ruas ou ruelas, desenham um labirinto. São esquinas de bancos sem dono, cruzamentos de ladainhas sem língua e nos fundos um aglomerado de tanques onde as lavadeiras giram roupas e as amassam nas mãos calejadas. Funnerbrunch é isto. 

E foi aqui que as bolas de Natal surgiram.

O espanto de todos era confuso e deixava os corações em saltos. Houve gente dividida entre quererem apanhas as bolas, bater-lhes pensando serem monstros que vieram dos céus, intriga pelo que seria aquilo de tantas cores e até indiferença. A indiferença veio de uma mulher, capaz de rondar o século de anos, que descansava de uma jorna de terra. Sentada junto a uma das esquinas de bancos, comia meio pedaço de pão seco. Os berros dos assustados deixavam-na incomodada,

– Não se pode descansar meio tempo nesta terra, que logo se espalham em gritarias sem termo,

– Não senhora Strungell. Desta vez é mesmo estranho. Bolas de várias cores caem do céu. Não vê?

– Se vejo, sim vejo. Mas não tenho nada para dizer. Logo não me entro pelas portas desse histerismo. E são bolas de natal.

– Como sabe? 

E é quando ela se esgueira no silencio. Enquanto isso o resto da aldeia continuava numa atarefada demanda pelas bolas de Natal.

Passadas algumas horas e já tudo estava inundado por bolas, chegou vindo da montanha, um homem mais misterioso que o próprio fenómeno. Trazia corpo coberto de vermelho e uma barba demasiado longa para se ver o lábio. Olhar perdido e forma cansada. Desceu sentado num trenó puxado por umas carcaças de renas. Esfomeadas e perdidas no cansaço. Ele saiu cambaleando. Um dos aldeões acercou-se dele, desviando a quantidade de bolas que se plantavam no chão,

– Que procuras, meu senhor?

– Procuro a minha mãe. Por acaso não a viste por aí?

– Sua mãe? Não sei quem será.

– Uma velha resmungona, sem piedade e indiferente a tudo a todos.

– Ah, essa senhora – precisamente que tinha trocado algumas palavras com a velhota que descansava pelo ligeiro de um banco – venha que lhe mostro já onde ela mora. Só tem um problema, a casa dela está quase soterrada por este amontoado de bolas.

Ele esgueirou-se no mar de bolas coloridas e chegou perto da porta. Sacudiu-se de bolas vermelhas e bateu. E voltou a bater, agora bem mais forte. E bateu, bateu e bateu. Até que das suas costas chegou uma voz,

– Não precisavas de te incomodar. Eu não passava bem sem ti. E podias evitar este espetáculo todo.  – Ele virou-se. Olhou-a. manteve-se preso ao mesmo lugar,

– Tinha de vir, tu sabes.  

– Eu sei que não te quero ver mais. Estou bem aqui. Já está. Pronto. Podes ir.

– Mãe. O Rodolfo precisa de ti. Está muito doente.

                                                                                              …continua…   

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Comic Con para totós


Calma, com isto não estou a querer dizer que a Comic Con é para totós. Quero, sim, dizer que este texto poderá servir para explicar aos leitores totós nesta matéria o que é a Comic Con.
Refiro-me, especificamente, à Comic Con Portugal, que ocorreu aqui há dias (6 a 9 de setembro de 2018) no Passeio Marítimo de Algés. Comic Con há muitas, sendo a mais famosa a de San Diego (EUA), cuja primeira edição já ocorreu em 1970. A «nossa» é bem mais nova, vai na sua 5.ª edição (as primeiras quatro foram na Exponor, no Porto, ou Matosinhos, ou Leça da Palmeira, como preferirem… distrito, concelho, freguesia.)


É incontornável… é um sucesso. Este ano, mais de 108 mil visitantes, batendo de novo o recorde, como sempre tem acontecido após a primeira edição. Mas o que levará tanta gente a este evento, que se considera a si mesmo um festival de cultura pop, onde todos podem ser o que pretendam ser? Muita coisa: estrelas internacionais de cinema e TV (este ano vieram Dolph Lundgren e Nicholas Hoult, por exemplo, e em edições anteriores passaram pela Exponor nomes como Cobie Smulders, Morena Baccarin, Daniela Ruah e Clark Gregg), autores de comicse BD (só nesta última edição passaram por lá Chris Claremont e Mauricio de Sousa – sim, esse mesmo, o criador da Mónica – que atraíram multidões quais estrelas de TV), cosplay(onde as pessoas se vestem das suas personagens preferidas, seja de filmes, jogos, livros, tudo), gaming, jogos de tabuleiro, exposições, etc., etc., etc. Tudo lá cabe. Nota: Não se inibam se um dia forem à Comic Con e pretenderem fotografar os cosplay, eles fazem gosto e fazem pose. Estão lá para isso, é a sua coroa de glória, serem apreciados pelos “civis”. E não se inibam também com os autógrafos.


Há sempre muitas sessões com autores de BD e escritores e são sempre boas oportunidades para um contacto mais direto entre artistas e fãs. Quem se dispuser a esperar sairá da fila satisfeito, com um desenho de um dos seus heróis, pois para quem não sabe há vários ilustradores portugueses a desenhar para editoras como a Marvel e DC Comics. E o melhor é que são por norma simpáticos e solícitos. E, depois, vêm sempre muitos estrangeiros de renome, também eles simpáticos e solícitos. Aviso, já que se fala de autógrafos. Quase sempre os autógrafos dos atores de cinema e TV são pagos, tal como as fotos que os fãs podem tirar.

Mas, principalmente, penso que as pessoas vão pelo ambiente e/ou atmosfera. Uma das atividades preferidas dos visitantes, penso que não errarei em afirmá-lo, é passear pelo meio de tudo, das pessoas, dos stands, das lojas, observando, conversando, trocando ideias… ou cartas.

Estive presente em todas as edições e nunca vi sequer uma discussão mais acesa, quanto mais pancada. Num espaço onde circulam por dia muitos milhares de pessoas, é obra. Aliás, basta ver diariamente a enorme fila ordeira à entrada do evento quando se abrem as portas para se perceber que o ambiente é pacífico. Basicamente, é uma festa onde as pessoas pretendem mesmo divertir-se e passar bons momentos. Desde famílias a grupos de amigos, passando por solitários, todos convivem num ambiente de festa permanente.

E não faltam atividades que lhes possibilitem isso mesmo, rentabilizando assim os preços dos bilhetes. Desde painéis para ouvir falar os artistas, sessões de autógrafos, apresentações de livros ou filmes ou séries, há de tudo. 


Mas um dos momentos altos do evento é, sem dúvida, a atuação da Lisbon Film Orchestra, que leva ao palco temas de filmes marcantes como Star Wars, E.T., Senhor dos Anéis, Piratas das Caraíbas, etc. O público faz fila, enche o auditório pelas costuras e aplaude freneticamente. Parece um concerto pop/rock, tal o entusiasmo, de músicos e plateia. 
Como já referi, na edição deste ano de 2018 houve 108 mil entradas no evento, pelo que quem contava com um fiasco na esperança de um regresso ao Norte pode, pelo menos para já, tirar o cavalinho da chuva. Houve algum azedume (e até raiva) nas redes sociais devido à transferência do evento da Exponor para o Passeio Marítimo de Algés, mas a verdade é que se trata de um evento de iniciativa privada. Privados vão para onde se sentem melhor, o problema está a montante. Toda a gente tem o direito a lamentar-se, irritar-se e queixar-se, mas as diferenças de tratamento Norte-Sul, Interior-Litoral, não começam nos privados. O Estado tem de dar o primeiro passo, o resto virá com naturalidade. San Diego é longe da capital Washington, certo?


(Fotos de Luana e Rui Azeredo)
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Férias

Olá a todos.
Sabendo que o Et(h)er tem andado algo adormecido por estas alturas, mas tudo por uma boa razão. Como já havia escrito por aqui, estamos a trabalhar num novo formato do Et(h)er. Melhor para todos. Para quem escreve e para quem lê.
Com várias novidades, incluindo uma equipa mais completa e com mais abrangências.
Gostava de já ter o novo Et(h)er pronto, mas os últimos testes tem trazido alguns contratempos. E como preferimos que quando haja o novo Et(h)er ele já esteja pronto a ser usado e abusado, preferimos adiar mais um pouco.
Até porque estamos em tempo de férias. Tempo de repousar e aproveitar o merecido descanso.
Assim, o Et(h)er vai de férias, mas por muito pouco tempo.
Até setembro vão ter novidades e estejam atentos porque vem um mundo et(h)eriano ainda melhor e mais interactivo.
Gozem, aproveitem, e assim que houver novidades, serão os primeiros a saber.
Em breve, o Mundo deixará mesmo de ser o que sempre foi…
Até lá,
Abraços Et(h)erianos.

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Deus da Carnificina

foto: twitter de Diogo Infante.

Deus da Carnificina. Yasmina Reza. Como sempre os textos sobre o quotidiano, desta dramaturga francesa, trazem-nos uma visão crua da verdade humana. Crua, mas divertida.
E assim é esta peça muito bem encenada e interpretada por Diogo Infante, a quem se junta Rita Salema, Patrícia Tavares e Jorge Mourato.
Temos dois casais de classes media/ alta, que se juntam para discutirem um arrufo entre os seus filhos, que terminou em alguns ferimentos num deles. A partir daqui começa um diálogo de estalar o verniz. As diferenças, os egos, as farsas, mentiras e até verdades escondidas e os conflitos… todos veem à tona.
Uma escritora que quer mudar o mundo, casada com um vendedor de panelas, acessórios e autoclismos…nunca aprendi tanto sobre este utensilio tão importante de evacuação (risos)…do outro lado um advogado de prestígio, que passa o tempo a atender o telefone sobre um problema de uma farmacêutica, casado com uma gestora de fortunas, a quem chama de…béu-béu… (mais risos).
O desenrolar do texto leva-nos a descobrir que afinal o suposto amor entre marido e mulher não passa de uma farsa mascarada por diferenças sombreadas pelo disfarce social. Fica bem parecermos um casal equilibrado. Vemos e percebemos ainda que o superficial é o que resta de relações entre marido e mulher, ambos distantes na forma de interpretarem a personalidade do seu filho, por exemplo. E quando entra o álcool, caem as máscaras, os pruridos morrem e surge a verdade. A tal crueldade que apenas é o que é. As pessoas. E as suas distâncias e diferenças.
E é aqui que nos deparamos com seres humanos que pelo motivo da sobrevivência, na defesa das suas crias ( e leia-se aqui incluídas, também, as suas ideias e ideais), se transformam ao ponto de se tornarem quase Deuses da Carnificina….mas sem violência que se veja.
É uma comedia muito bem construída, quer no texto, quer nas personagens e nos tempos. E deixa-nos com a sensação humorística de: e se fosse connosco?
A ver, por um Teatro qualquer deste país.