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dedos que tecem

De dedo em dedo

Vais tecendo os sentimentos

Entre linhas que aspiram as paixões e as borboletas

De asas partidas que se enrolam no peito

Pelos teus dedos

O teu corpo de mulher se avizinha

Pela sombra escondida 

Natureza morta pela nascença que não permite

Que sejas bonita pela manhã e bela pelas tardes 

Onde o sol reflete o seu anoitecer 

Nesse horizonte de seres forma e doce feminina

Pelo tecer do teu pano

Vem preto, negro vestido que assombra o teu íntimo

De ignorância e triste destino

De dedo em dedo

Vais tecendo os sonhos que não podes criar

Ou as ilusões que não deves amamentar

Pois na tua sede de gritar

Amarram-te a voz pelo tecido que

De dedo em dedo

Foste tecendo mesmo debaixo do teu olhar.

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A onda…

A onda
Mar que vem e lhe toca
Areia que se enrola no pé,
Sol amarrado na pele.
A onda que despe a vida
O respiro de uma alma
Que se banha nos temperos dos dias
Amando
(Des)amando
Cada instante de morte
Que se aproxima pela nuvem do horizonte
E cai no manto espelhado do oceano.

A onda de
Gente que brinca
Mulheres que sangram
Homens que gritam
Pássaros que se amanham
No peixe que se pica nos iscos da história.

E a onda
Sem pressas e depressas
Espalha-se no enrolo da praia
E vai com o desenrolar do tempo,
Com o deleite de um momento.

La ola
El próximo mar viene a ti
Arena que se riza en el pie,
Sol atado a la piel.
La ola que despoja a la vida.
El aliento de un alma
Que se baña en las especias de los días.
Amoroso
(Des) amoroso
Cada instante de muerte
Acercándose por la nube del horizonte
Y cae sobre el manto espejado del océano.

La ola de
Personas que juegan
Mujeres que sangran
Hombres que gritan
Pájaros que vienen
En pescados que pican en los cebos de la historia.

Y la ola
Sin prisas y prisa
Se propaga en la bobina de la playa.
Y va con el desarrollo del tiempo,
Con el placer de un momento.





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(Re)visão

O passarinho verde

Diz a lenda do século XIX, que todos aqueles que demonstram, sem motivo aparente, uma enorme alegria é porque teriam acabado de ver um passarinho verde. A ave associada a esta lenda seria um periquito. A mesma que servia para levar, presos no bico, bilhetes trocados entre namorados. A ave de quem se encanta por algo ou alguém que acabou de ver.

Ao longo da nossa vida queremos ver muitos. Poisam muitas vezes no peitoril da nossa janela ou varanda, quando menos esperamos, fazendo-nos mostrar o nosso melhor ar de satisfação. Também sorrimos quando apenas os vemos voar a uma distância maior, mas suficientemente perto para os conseguirmos identificar. No entanto, o que os torna únicos é a sua capacidade de se transformarem em múltiplas coisas. Não é difícil, enquanto vamos somando dias, encontrar um passarinho verde em forma de livro, de brisa, de luar, de uma tarefa profissional bem executada, e uma música, de um copo de vinho ou simplesmente de uma lareira acesa.

A verdade é que o passarinho verde mais esplendoroso, transformando-se por isso também no mais desejado, é aquele que nos aparece em forma de gente. Capaz de nos deslumbrar, nesta maneira de se apresentar. E é esta a forma que precisa mais do nosso cuidado e proximidade. A beleza do bater das suas asas não se limitará apenas a instalar-se nos nossos sentidos, ao longo dos períodos, longos ou curtos, em que voa perto de nós. A enorme atenção que lhe dispensamos pela importância que lhe reconhecemos, vai fazer com que o passarinho verde nos fique para sempre. Mesmo que ele tenha voado, sem intenções de regressar. Mesmo que ele tenha desaparecido em definitivo, matando-nos de saudade.

Ver um passarinho verde, ultrapassa em muito o significado da sua cor, associada à esperança e à paz. É também deixar-nos, por mais ou menos tempo, felizes.

A corrida da felicidade é uma longa maratona que fazemos pela espetacular natureza da vida.

Sem passarinhos verdes, onde encontraremos resistência para a fazer?

José Rodrigues assina (Re)visão.
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(Re)visão

A diferença entre amar e amar perdidamente.

Quem já amou alguém, pelo menos uma vez na vida, sabe bem a diferença entre amar e amar perdidamente. Ama quem acorda e tem a noção das horas que são e se faz bom ou mau tempo na rua. Ama perdidamente quem pensa na pessoa que ama muito antes de pensar nas horas que são, e na rua, mesmo no inverno mais tempestuoso, vê sempre um sol radiante. Ama perdidamente quem sorri sem motivo, mesmo quando está sozinho, resolvendo rir de si mesmo. Ama quem acha que não existe ninguém mais belo no mundo do que a pessoa que se ama. Ama perdidamente quem acha que o mundo é um espaço demasiado pequeno para tão grande amor.

Ama quem acha que quando as mãos se reencontram podem misturar-se. Ama perdidamente quem acha que misturar mãos é muito mais do que as unir e que não sabendo onde estão, é deixá-las perderem-se. Ama quem olha enquanto sente uma forte e repentina chuvada de verão, que deixa um cheiro intenso a relva e a terra. Ama perdidamente quem deixa misturar bocas e pescoços e desaperta fivelas e botões enquanto o temporal decorre. Ama quem respira fundo e se deixa adormecer. Ama perdidamente quem acha que é proibido dormir até chegar a madrugada.

Ama quem junta um mais um ou dois mais dois e encontra um resultado. Ama perdidamente quem acha que encontrar lógica nos assuntos do coração é como caminhar a pé pelo meio de um deserto e não se preocupa que a vida inteira pode passar sem se encontrar um oásis. 

Ama quem combina números e letras, cores e temperaturas, desenhos e símbolos. Ama perdidamente quem acha que não existe um número total de combinações pois elas podem ser feitas com tudo e mais alguma coisa, de forma espontânea. Ama quem acha que a cor dos olhos da pessoa amada repousa na pele de um rosto bonito. Ama perdidamente quem os olhos têm uma cor indefinida e que reflete o brilho de um sol que aquece a pele e aparece sempre inteiro. Ama quem desenha sempre um sorriso na pessoa amada. Ama perdidamente quem acha que o rosto já tem tudo e por isso o sorriso se desenha sozinho, completo e íntimo, como aquela parte da natureza que o homem não tem o direito de modificar, mesmo que as luas, sejam elas quais forem, o queiram fazer.

Ama quem acha que tem apenas um coração dentro do peito. Ama perdidamente quem acha que talvez exista mais do que um coração dentro do peito, porque continua a viver mesmo depois de o entregar por completo a alguém que se ama…

José Rodrigues assina o artigo (Re)visão.
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adeus sem dizer adeus…

Augustina. Obrigado Augustina Bessa Luís.

A morte levou-a. Mas não levou a sua memória, as suas palavras, os seus livros e ensaios. A morte pode vir vestida de tecido e levar um corpo, que não apaga o que a vida escreveu.

Faltou tanto. Falta sempre quando se parte. Mas a si apenas me lembra uma coisa, a notabilidade de um Nobel que lhe assentava tão bem. Mas a sua simplicidade aparente não o desejava. Não se deseja tudo aquilo que se merece. E merecia-o.

“Acabarei como aquele que disse que pouco louvou na vida e se arrepende de não ter louvado ainda menos.”

O livro e as folhas nele contidas, foram sendo redigidas pela audácia de uma mulher sem medos. E sempre na roça das frases, devastando ideias e ideais, voçê não se prostrou perante os pensamentos alheios. E escreveu, escreveu e deu a saborear tantas historias, que hoje recordo com a paz de quem olha o seu nome e sente mais do que isso, mais do que as capas, os titulos ou os louvores…sente a paz de uma sabedoria unica e transversal ao seu tempo…

“O privilégio de se ser uma vítima do nosso sentimento de superioridade, é difícil de suportar. Assusta muita gente, parece uma heresia em tempos como os nossos. E, no entanto, é fundamental, para que uma obra seja feita.”

Obrigado Augustina Bessa Luís.

E nunca se diz adeus a quem nunca nos disse adeus…