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Eu gosto é do verão… mas não só



Para mim, não há como o verão. Mais luz, mais calor, e isso só por si já bastaria. Já nos tempos da escola, o objetivo-mor era suportar os três períodos até chegarem as férias do verão, as «grandes». Posto isto, é evidente que a situação do outono é bastante complicada. 
O outono, aparentemente, tem tudo contra ele. São os dias que começam a ficar mais pequenos, o frio a vergar aos poucos o calor, a chuva que, se começar a cair, há de ter dificuldade em parar. Os incondicionáveis do verão não têm como apreciar o outono. Até o inverno tem a seu favor o facto de no seu reinado os dias começarem a crescer.
No entanto, se perdoarmos ao outono a desfeita de nos empurrar para longe o verão, poderemos tirar muito proveito dele. A verdade é que nos outonos mais quentes (e até têm sido muitos) chegamos a ansiar por um pouco mais de frio para podermos saborear as castanhas que estão ali a assar à nossa espera, lançando aquele fumo branco que nos desperta não só o olfato, mas todos os outros sentidos. Castanhas ao calor não sabem bem, pois em grande parte são feitas para nos aquecer no outono, enquanto física e psicologicamente nos preparamos para o inevitável frio do inverno, esse a ser contornado já sem a ajuda do prestimoso fruto outonal. Por isso, secretamente, ansiamos por um pouco de frio, quiçá uma nuvem mais densa e lenta a cruzar o céu, o tempo bastante para devorar a dúzia delas embrulhada em papel, que já não é de lista telefónica, esse objeto que deixou de fazer sentido no nosso mundo. 
Penso, também, que grande parte do encanto da castanha se deve ao facto de ser fruto sazonal, impedindo-nos que nos fartemos dele e que por ele ansiemos durante largos meses. Um pouco como as cerejas, o fruto anunciador do verão.
Já alimentados pela castanha, começamos a saber desfrutar melhor da estação intermédia entre o verão e o inverno, os dois extremos mais amados e odiados. E, então, podemos reparar nas cores, no rubro das folhas que caem e correm pelo solo e do sol que se põe também em tons laranja, tal como na temperatura branda que ainda se aguenta nas horas de luz. E perceber, então, que há muito a aproveitar e viver na estação de «passagem», até porque não tarda nada está aí o inverno, esse sim com um feitio frequentemente insuportável.
(Foto Rui Azeredo)

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O Predador e O Predador


 
O original, de 1987, chama-se “Predator”, o deste ano é “The Predator”, mas infelizmente a diferença não está só no nome.A qualidade de ambos é muito díspar, com vantagem para o antigo. Já agora, em Portugal partilham o título, “O Predador”.
Têm algo mais em comum, Shane Black, ator no primeiro, realizador deste último. E talvez este seja o problema do filme. Black, parece-me, tentou evocar em demasia o original, até na música. O tom geral é o mesmo, um grupo de militares atrás de um monstro na selva, ou floresta, mas a esta equipa falta-lhe carisma, nomeadamente se pensarmos em Schwarzenegger. Depois há exageradas tentativas de humor, por norma mal sucedidas, o que é estranho se pensarmos que o realizador foi o autor dos bem conseguidos “Bons Rapazes” e “Homem de Ferro 3”, onde se mistura com talento humor e ação.
Mas, principalmente, acho que há predador a mais. Eu explico, no primeiro filme o visitante do espaço assusta mais pela ausência do que pela presença, sabe-se que anda por lá, mas pouco se deixa ver. Talvez o acesso a melhores efeitos tenha levado Black a querer mostrar o monstro. Cai no exagero e o que se ganha em ação pura e dura perde-se em emoção. E depois há uma pretensão de explicar a presença dos predadores na Terra, mas às vezes mais vale ir pelo simplicidade, como em “Predadores”, que resultou bem melhor. Em suma, “O Predador” de Black é um interessante filme de ação, mas igual a tantos outros, não honrando a saga.
Visto isto, muitos anos depois aproveitei para rever na TV o primeiro, de Schwarzenegger, e posso dizer que o filme envelheceu muito bem. Agora, segue-se “Rocky IV”, pois desde que descobri que Dolph Lundgren é um engenheiro químico que ganhou uma bolsa no MIT, e uma pessoa naturalmente simpática, resolvi dar-lhe uma segunda oportunidade. E vou preparando terreno para “Creed 2”, que chega daqui a dois meses.    
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Comic Con para totós


Calma, com isto não estou a querer dizer que a Comic Con é para totós. Quero, sim, dizer que este texto poderá servir para explicar aos leitores totós nesta matéria o que é a Comic Con.
Refiro-me, especificamente, à Comic Con Portugal, que ocorreu aqui há dias (6 a 9 de setembro de 2018) no Passeio Marítimo de Algés. Comic Con há muitas, sendo a mais famosa a de San Diego (EUA), cuja primeira edição já ocorreu em 1970. A «nossa» é bem mais nova, vai na sua 5.ª edição (as primeiras quatro foram na Exponor, no Porto, ou Matosinhos, ou Leça da Palmeira, como preferirem… distrito, concelho, freguesia.)


É incontornável… é um sucesso. Este ano, mais de 108 mil visitantes, batendo de novo o recorde, como sempre tem acontecido após a primeira edição. Mas o que levará tanta gente a este evento, que se considera a si mesmo um festival de cultura pop, onde todos podem ser o que pretendam ser? Muita coisa: estrelas internacionais de cinema e TV (este ano vieram Dolph Lundgren e Nicholas Hoult, por exemplo, e em edições anteriores passaram pela Exponor nomes como Cobie Smulders, Morena Baccarin, Daniela Ruah e Clark Gregg), autores de comicse BD (só nesta última edição passaram por lá Chris Claremont e Mauricio de Sousa – sim, esse mesmo, o criador da Mónica – que atraíram multidões quais estrelas de TV), cosplay(onde as pessoas se vestem das suas personagens preferidas, seja de filmes, jogos, livros, tudo), gaming, jogos de tabuleiro, exposições, etc., etc., etc. Tudo lá cabe. Nota: Não se inibam se um dia forem à Comic Con e pretenderem fotografar os cosplay, eles fazem gosto e fazem pose. Estão lá para isso, é a sua coroa de glória, serem apreciados pelos “civis”. E não se inibam também com os autógrafos.


Há sempre muitas sessões com autores de BD e escritores e são sempre boas oportunidades para um contacto mais direto entre artistas e fãs. Quem se dispuser a esperar sairá da fila satisfeito, com um desenho de um dos seus heróis, pois para quem não sabe há vários ilustradores portugueses a desenhar para editoras como a Marvel e DC Comics. E o melhor é que são por norma simpáticos e solícitos. E, depois, vêm sempre muitos estrangeiros de renome, também eles simpáticos e solícitos. Aviso, já que se fala de autógrafos. Quase sempre os autógrafos dos atores de cinema e TV são pagos, tal como as fotos que os fãs podem tirar.

Mas, principalmente, penso que as pessoas vão pelo ambiente e/ou atmosfera. Uma das atividades preferidas dos visitantes, penso que não errarei em afirmá-lo, é passear pelo meio de tudo, das pessoas, dos stands, das lojas, observando, conversando, trocando ideias… ou cartas.

Estive presente em todas as edições e nunca vi sequer uma discussão mais acesa, quanto mais pancada. Num espaço onde circulam por dia muitos milhares de pessoas, é obra. Aliás, basta ver diariamente a enorme fila ordeira à entrada do evento quando se abrem as portas para se perceber que o ambiente é pacífico. Basicamente, é uma festa onde as pessoas pretendem mesmo divertir-se e passar bons momentos. Desde famílias a grupos de amigos, passando por solitários, todos convivem num ambiente de festa permanente.

E não faltam atividades que lhes possibilitem isso mesmo, rentabilizando assim os preços dos bilhetes. Desde painéis para ouvir falar os artistas, sessões de autógrafos, apresentações de livros ou filmes ou séries, há de tudo. 


Mas um dos momentos altos do evento é, sem dúvida, a atuação da Lisbon Film Orchestra, que leva ao palco temas de filmes marcantes como Star Wars, E.T., Senhor dos Anéis, Piratas das Caraíbas, etc. O público faz fila, enche o auditório pelas costuras e aplaude freneticamente. Parece um concerto pop/rock, tal o entusiasmo, de músicos e plateia. 
Como já referi, na edição deste ano de 2018 houve 108 mil entradas no evento, pelo que quem contava com um fiasco na esperança de um regresso ao Norte pode, pelo menos para já, tirar o cavalinho da chuva. Houve algum azedume (e até raiva) nas redes sociais devido à transferência do evento da Exponor para o Passeio Marítimo de Algés, mas a verdade é que se trata de um evento de iniciativa privada. Privados vão para onde se sentem melhor, o problema está a montante. Toda a gente tem o direito a lamentar-se, irritar-se e queixar-se, mas as diferenças de tratamento Norte-Sul, Interior-Litoral, não começam nos privados. O Estado tem de dar o primeiro passo, o resto virá com naturalidade. San Diego é longe da capital Washington, certo?


(Fotos de Luana e Rui Azeredo)
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O gato de Biarritz, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Algures no início deste século (ou milénio, se preferirem) encontrámos em Biarritz este gato, tal como o veem, e estragámos-lhe o dia. Foi sem querer, naturalmente, mas aconteceu mesmo. Aninhado no algodão fofo da montra da loja, entre brinquedos com os quais tão bem combinava, protegeu-se do frio de um dia de sol de inverno e acolheu de bom grado o calor que emanava do vidro. Encaixado entre o cão de madeira, o avião, os trenós, o peluche e as flores, o Gato de Biarritz parecia ele próprio um elemento decorativo. De tal forma que, entrando na loja, comentámos com o dono da loja que “le chat” ficava muito bem na montra. “Gato? Que gato?”, questionou o homem, típico dono de loja requintada de antiguidades, ou pelo menos tal como os imagino, com o seu lenço ao pescoço. Correu para a montra e enxotou prontamente o gato que, percebi então, era simplesmente um invasor. Desolados, e com a lição aprendida, saímos para a rua, onde nos cruzámos com o gato, que nos ignorou, nem sequer bufando, como era merecido. Fomos embora, na esperança de que ele ocupasse outra montra. Dado que, apesar do seu ar sonolento e passivo, nos pareceu um gato bem tratado, convenci-me de que ele iria encontrar outro pouso, de preferência onde não viesse um idiota estragar-lhe o descanso.

História verdadeira tanto quanto a memória me permite.

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Umas luzes sobre tradução e revisão, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

 
Dado que a minha formação profissional foi outra, jornalismo, até poderia não ser a pessoa mais indicada para estar a dar aqui umas luzes sobre o que é a tradução e também a revisão literária. No entanto, já levo uns anos de experiência, com umas boas dezenas de traduções e revisões na «mala», e, por isso, acho que podem ficar minimamente descansados.
Para quem não sabe, ou nunca pensou, como funciona o processo de tradução de uma obra literária, aqui ficam então algumas luzes; da revisão «falarei» mais à frente neste texto, dado que se trata de uma fase posterior no processo de elaboração de um livro.
Uma editora por norma tem uma carteira de tradutores (trabalhadores independentes) com quem trabalha habitualmente e a quem encomenda as suas traduções. Para isso, pode ter em conta, quando possível, o facto de o tradutor já conhecer a obra do escritor em causa (pode ter trabalhado outros livros do autor), por já haver uma útil familiaridade, ou de estar habituado ao género literário do livro em causa. Havendo disponibilidade e interesse da parte do tradutor, é-lhe enviado o original. Hoje em dia, este original, por norma, é em PDF, sendo cada vez mais raro haver traduções feitas a partir de livros em papel – nem queiram saber o estado em que por norma ficam esses livros, às vezes até com blocos de páginas arrancados para serem mais fáceis de manusear. E, então, o tradutor começa a trabalhar no Word(ou outro processador de texto), por norma pressionado por um prazo apertado.
Um tradutor deve ter sempre em conta a «casa» para quem trabalha, pois entre as editoras há sempre pequenas «divergências» em termos de estilo. Por exemplo, que tipos de aspas usar, deve seguir o artigo antes do nome nos diálogos (ou até na própria narrativa, especialmente nas obras para públicos mais jovens), respeitar ou não o novo acordo ortográfico, os nomes das personagens devem ser traduzidos, 8thAvenue ou Oitava avenida ou 8.ª Avenida, etc.
Depois, há situações e dúvidas com que nos vamos deparando a cada passo e que às vezes é preciso resolver na hora. Aí, sigo a regra que me ensinaram no dia em que comecei a trabalhar nesta área: «Rui, usa o bom senso.» É uma boa regra para se fugir ao aperto do formalismo que tende a afetar quem teve formação na própria área da tradução. Eu, enquanto tradutor, perdi muito (nem sei bem quanto) por não ter estudado na área, mas ganhei alguma liberdade para tornar as «coisas» menos formais, o que em certos casos é vantajoso. A falta de formação específica também me permite nunca tomar nada por garantido, o que me leva a fazer inúmeras consultas antes de me decidir. Nem imaginam quantas vezes eu estava errado em relação a algo.
Um dos maiores tropeções que um tradutor pode dar é traduzir à letra algo que tem outro sentido subjacente. Traduzido à letra até pode fazer sentido, mas perde-se o requinte da ideia original do escritor, com prejuízo para o próprio mas, principalmente, para o leitor. Uma frase, ou ideia, vulgar pode afinal ser uma preciosidade, que não deve permanecer oculta.
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As «outras» línguas
O mais comum é traduzir do inglês para português, seguido pelo castelhano e pelo francês, mas também se faz, naturalmente, a partir de outras línguas menos comuns em Portugal, como o árabe, o hebraico, o polaco, o sueco, etc. A dificuldade, aqui, reside em encontrar quem tenha conhecimentos para traduzir essa língua para português. Há uma alternativa, na qual os leitores mais atentos já poderão ter reparado por vir referida na ficha técnica de um livro: «Traduzido a partir da edição inglesa/francesa/espanhola por…» Não é a solução ideal (uma tradução de uma tradução perde sempre algo pelo caminho), mas por vezes pode ser o próprio escritor a recomendar uma tradução por ser aquela que no seu entender mais respeita o original.
Outra dúvida que poderá afetar os leitores é saber como é possível uma obra em língua estrangeira ter edição simultânea em Portugal e no seu país de origem. É o caso, por norma, dos livros de Dan Brown. Na verdade, é simples de explicar e de perceber. A obra é entregue antecipadamente ao editor que, quando o tempo escasseia, a distribui por vários tradutores em simultâneo. Cada um trabalha a sua parcela de livro, que depois serão reunidas, idealmente supervisionados por uma única pessoa, para tratar da uniformização de estilo e linguagem. Por norma, os envolvidos neste tipo de trabalho assinam um acordo de confidencialidade, para evitar que algo transpire antes do tempo para o exterior.
 
O melhor amigo dos tradutores
O revisor, papel muitas vezes ignorado que com frequência nem sequer é referido na ficha técnica, é o melhor amigo do tradutor. É o revisor que aperfeiçoa o texto, apanha as gralhas, descola o texto do original (está mais distante e tem mais facilidade em fazê-lo), corrige erros e interpretações mal feitas. A verdade é que quando um leitor lê um livro e aprecia a tradução não consegue perceber até que ponto foi a intervenção do revisor. Por exemplo, sei de um caso ocorrido há uns anos de uma tradução premiada que, na verdade, não era mais do que mediana. A revisão sim, fora excelente, mas o mérito foi todo para a tradutora. Para a revisora? Nem um agradecimento.
O ideal (possível e viável) é fazer duas revisões à tradução, podendo uma ser feita ainda em Worde outra já em papel, ou PDF, e paginado. Há quem defenda que deverá ser a mesma pessoa a fazer as duas, para limar o que deixou escapar na primeira (há sempre algo que escapa), mas também há quem opte por revisores diferentes para que, com outros olhos, um veja o que escapou ao primeiro. Ao contrário do que acontece com as traduções, há editoras que fazem as revisões internamente, socorrendo-se apenas ocasionalmente de revisores externos. Depende muito do fluxo de trabalho com que se deparem na altura.
Agora, sempre que ler um livro traduzido, já vai saber parte daquilo por que ele passou antes de lhe chegar às mãos.
 

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Livros são caros?…pelo et(h)eriano Rui Azeredo

Os livros são caros? Nem por isso…

Sei que optar por este título pode levar algumas pessoas a insultarem-me. Mas é a mais pura verdade. Sigam-me até ao fim, é já umas linhas ali em baixo, e hão de concordar comigo.

Sim, há livros caros, e neste caso refiro-me principalmente às novidades – um livro só pode ter desconto de venda ao público superior a dez por cento ao fim de dezoito meses no mercado. Mas, se esquecermos as novidades, podemos arranjar bons (ou muito bons) livros a preços bons (ou muito bons).

Não faltam por aí promoções nas livrarias (físicas ou online) com imensas obras interessantes, desde contemporâneos a clássicos, além dos cada vez mais populares e disseminados livros de bolso. Neste último caso, a história é a mesma, as letras e o preço é que são mais diminutos.

E, depois, temos os livros em segunda mão, enquanto ainda subsistem alfarrabistas ou nos cada vez mais omnipresentes mercados de rua, ou, claro, online. E, se o objetivo passa «apenas» por ler e não guardar propriamente o livro, que tal recorrer às bibliotecas? Para quem não saiba, até há bibliotecas escolares que cedem livros aos pais ou encarregados de educação.

Sim, é agradável comprar um livro bom e vistoso e bem cheiroso, mas nem sempre é possível, só que isso não pode servir de desculpa para não se ler.

Nas nossas bibliotecas domésticas há espaço para todo o tipo de livros, deixemo-los coabitar nas estantes.

E, pensando bem, às vezes não vale mais a pena comprar dois livros de dez euros em vez de um de vinte? Ou dois de cinco em vez de um de dez? Sim, alerta para os mais distraídos: é possível comprar bons livros a cinco euros! Não acreditam? Passem, por exemplo, numa feira do livro e digam-me qualquer coisa.

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Ver um filme através de um livro, pelo Et(h)eriano Rui Azeredo

Sempre gostei de ler um livro e depois ver o respetivo filme, quando o há. Agrada-me comparar o que visualizei ao longo da leitura com a visualização formada pelo realizador e pela sua equipa. Quase nunca bate certo e eu fico invariavelmente a perder na comparação, mas é um exercício divertido. E, depois, há os raros momentos de glória que me levam a pensar: «Foi mesmo assim que eu imaginei a cena!»
Houve, no entanto, um caso em que ler o livro foi mesmo a minha única opção. E.T. – O Extraterrestre, de Steven Spielberg, estreou em Portugal em dezembro de 1982 numa altura em que, por motivos de saúde, fiquei uns meses acamado. Fascinado com filmes como Encontros Imediatos do 3.º Grau ou Os Salteadores da Arca Perdida, uma nova obra de Spielberg só por si já seria o suficiente para me deixar desesperado. Mas, com a agravante de abordar um tema que me era querido (ETs amigos) a ansiedade redobrou. Na primária até ganhei um prémio de BD com uma história de aliens que chegam em paz à Terra, mas diga-se que terá sido mais pelo argumento do que pelos desenhos.
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Como à época os filmes demoravam o seu tempo a cruzar o Atlântico (E.T. estreou em junho de 1982 nos EUA), muito se foi escrevendo por cá sobre Elliot e o seu amigo de outro mundo. Li, recortei e guardei tudo o que pude e fui formando o filme na minha cabeça, sem saber se daí a uns meses ainda o apanharia nos cinemas. Depois, socorri-me da melhor ferramenta possível para conhecer a história do E.T. A adaptação literária do filme, editada na saudosa coleção de livros bolso da Europa-América dedicada à ficção científica. É o número 44, logo a seguir a Blade Runner e antes de Batalha no Espaço – Os Jovens Guerreiros, para quem não sabe, a Galáctica original. E li o livro, que sendo uma adaptação direta do filme era fiel ao mesmo. Socorrendo-me das fotos já conhecidas, montei o filme na minha mente. E li o livro outra vez, pois sobrava-me o tempo e faltava-me a sala de cinema.
O escritor norte-americano William Kotzwinkle, que hoje se dedica essencialmente à literatura infantil, sem ser publicado em Portugal, foi o meu herói da altura, o meu escritor preferido, pois deu-me a possibilidade de «ver» o filme que eu tanto queria ver e que não sabia se algum dia o veria – talvez num futuro distante num dos dois canais de televisão que havia à época. Em 1982 não tínhamos a garantia de um dia podermos ver um filme perdido, pois os videoclubes e as cassetes de vídeo eram à data algo ainda distante de um comum português. Até hoje, naturalmente, já vi o filme várias vezes em vídeo, e até na versão dobrada em português. Mas, na altura, isso era algo tão distante como assistir ao vivo a uma corrida de Fórmula 1 ou um dia vir a ser jornalista ou andar de avião.
Semanas a passar, formando meses, eu em casa, o E. T. ainda nas salas de cinema. Na época o tempo de vida de um filme nas salas era bem maior, mas se saísse de exibição a minha única esperança seria uma matinée de domingo na sociedade recreativa local, com uma fita gasta cheia de cortes devido ao uso constante. Foi assim, aliás, que vi pela primeira vez no cinema um filme de 007, no caso Moonraker – Aventura no Espaço, numa sala mal escurecida, em cadeiras duras, num piso sem inclinação e com excelente vista para as cabeças da frente, tudo envolto numa cortina de fumo de tabaco.
Mas não foi preciso chegar a esse ponto. Assim que regressei ao ativo, algo que tratei de fazer quase de imediato foi rumar ao agora encerrado cinema Berna, em Lisboa, sozinho, porque tinha a impressão de que eu seria a única pessoa que conhecia que ainda não tinha visto o filme.
E se valeu a pena! Ainda hoje E.T. é o filme da minha vida e, diga-se, era exatamente como eu o imaginara com o recurso ao livro, enriquecido pelos meus recortes. Por isso, nunca esquecerei E.T. – O Extraterrestre, de Kotzwinkle, um dos livros da minha vida. Não é, visto ao fim de todos estes anos, a pérola literária que me pareceu na inocência da adolescência, mas ajudou-me a imaginar algo que eu temia não poder alcançar, levou-me lá, e é para isso mesmo que serve um livro, ou não é?

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Nova Iorque é maior vista de cima, pelo et(h)eriano Rui Azeredo

 
Sempre achei que ao pisar Nova Iorque iria ficar assoberbado com a altura dos arranha-céus. São impressionantes, é verdade. O céu azul praticamente só se vê em frinchas, as sombras dominam a paisagem, e o sol fica reservado para os telhados dos mais altos edifícios. Mas, ainda assim, quando me livrei do trânsito infernal e finalmente pus os pés em Nova Iorque fiquei com sensação de que os prédios não eram tão altos como os imaginara com a ajuda de tantos filmes, fotos e livros. Altíssimos, sem dúvida! Mas pensei que iria ficar mais esmagado.
 
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Precisei de ir «lá acima» para sentir o que esperava viver «lá em baixo». A grandiosidade nova-iorquina em termos de betão é mais palpável do alto, não de um avião, mas sim de um dos edifícios mais imponentes, porque com som e sem o isolamento total de uma janela toda a experiência se intensifica. As sirenes constantes da polícia e bombeiros, uma realidade omnipresente e não uma ficção cinematográfica, ironicamente alimentam de vida a cidade, já que os sons individuais das pessoas não sobem tão alto. Ao longe veem-se os aviões a circular de e para os aeroportos que servem Nova Iorque e é inevitável pensar que um dia dois houve que se aproximaram demasiado.
Bem aconselhado por um nova-iorquino residente em Portugal, o escritor Richard Zimler, a escolha recaiu sobre o observatório do Top of the Rock, no Rockfeller Center, onde se evitam as longas filas do Empire State Building e, além disso, se tem vista privilegiada sobre este último.
Foi assim no alto do Top of the Rock que finalmente me senti esmagado por Nova Iorque, onde a noite me comprovou que se há uma cidade-luz, esta será a cidade das luzes. Aqui senti-me no centro do nosso mundo, e soube bem, e isso fica para sempre.
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Depois, desci, não vi o Jimmy Fallon e mergulhei naquele zumbido constante de motores, conversas, risos, música, entre luzes e néons e passei a ser uma partícula de uma paisagem deslumbrante observada por alguém que se terá cruzado comigo no outro elevador.