Categoriespart(í)culas li(t)erárias

(Re)visão

A diferença entre amar e amar perdidamente.

Quem já amou alguém, pelo menos uma vez na vida, sabe bem a diferença entre amar e amar perdidamente. Ama quem acorda e tem a noção das horas que são e se faz bom ou mau tempo na rua. Ama perdidamente quem pensa na pessoa que ama muito antes de pensar nas horas que são, e na rua, mesmo no inverno mais tempestuoso, vê sempre um sol radiante. Ama perdidamente quem sorri sem motivo, mesmo quando está sozinho, resolvendo rir de si mesmo. Ama quem acha que não existe ninguém mais belo no mundo do que a pessoa que se ama. Ama perdidamente quem acha que o mundo é um espaço demasiado pequeno para tão grande amor.

Ama quem acha que quando as mãos se reencontram podem misturar-se. Ama perdidamente quem acha que misturar mãos é muito mais do que as unir e que não sabendo onde estão, é deixá-las perderem-se. Ama quem olha enquanto sente uma forte e repentina chuvada de verão, que deixa um cheiro intenso a relva e a terra. Ama perdidamente quem deixa misturar bocas e pescoços e desaperta fivelas e botões enquanto o temporal decorre. Ama quem respira fundo e se deixa adormecer. Ama perdidamente quem acha que é proibido dormir até chegar a madrugada.

Ama quem junta um mais um ou dois mais dois e encontra um resultado. Ama perdidamente quem acha que encontrar lógica nos assuntos do coração é como caminhar a pé pelo meio de um deserto e não se preocupa que a vida inteira pode passar sem se encontrar um oásis. 

Ama quem combina números e letras, cores e temperaturas, desenhos e símbolos. Ama perdidamente quem acha que não existe um número total de combinações pois elas podem ser feitas com tudo e mais alguma coisa, de forma espontânea. Ama quem acha que a cor dos olhos da pessoa amada repousa na pele de um rosto bonito. Ama perdidamente quem os olhos têm uma cor indefinida e que reflete o brilho de um sol que aquece a pele e aparece sempre inteiro. Ama quem desenha sempre um sorriso na pessoa amada. Ama perdidamente quem acha que o rosto já tem tudo e por isso o sorriso se desenha sozinho, completo e íntimo, como aquela parte da natureza que o homem não tem o direito de modificar, mesmo que as luas, sejam elas quais forem, o queiram fazer.

Ama quem acha que tem apenas um coração dentro do peito. Ama perdidamente quem acha que talvez exista mais do que um coração dentro do peito, porque continua a viver mesmo depois de o entregar por completo a alguém que se ama…

José Rodrigues assina o artigo (Re)visão.
Categoriespart(í)culas so(l)tas partículas dos dias

Remédio para Cre(s)cer

O dia em que o copo não transborda

Nos últimos 4 meses, semanalmente, percorro, de carro, o trecho entre Ribeirão Preto e São Paulo, ida e volta. Seiscentos e cinquenta quilômetros aproximadamente. Em média, isto ocupa cerca de 7 horas da minha semana. Parece pouco quando pensamos que uma semana tem 168 horas, mas te garanto que é bastante tempo para a minha imaginação entrar em ação e funcionar em uma intensidade bastante alta, já que está livre de outras distrações.

Procuro aproveitar bem este tempo. Ouço meus podcasts, áudio livros e também música para tentar direcionar meu estado emocional para onde eu quiser que ele vá. A música tem um imenso poder de modificar nosso humor. Para o bem ou para o mal, o “freguês” que escolhe. Para mim, quase sempre funciona.

Quase sempre. Tem dias, ou noites, que não funciona. Tem dias que a imaginação nos trai e “imagina” cenários que nos afetam profundamente. Quase sempre, também, estes cenários não se realizam. É só imaginação.

No meu último artigo, falei sobre como a imaginação pode nos levar à uma vida criativa. E como isto pode nos deixar felizes e tornar a vida mais divertida. A imaginação é assim mesmo, uma parceira maravilhosa que, vez ou outra, muda o trajeto. É quente ou fria. Céu ou inferno. Gosto dela assim. Prefiro o quente e o céu, mas estes não seriam tão bons sem o referencial do frio e do inferno.

Nesta semana, estava escutando uma entrevista com uma pessoa que largou o emprego formal em uma instituição financeira e resolveu “ganhar” o mundo, vivendo como “nômade digital”. Admiro imensamente pessoas de coragem. Não foi diferente ao ouvir esta entrevista. Pessoas corajosas transformam o mundo, inspiram, são como super heróis.

Ao ouvir a entrevista, fiquei com a impressão que, no fundo, ele sempre soube o que queria e o que fazer. Era uma conclusão óbvia, pois imaginamos que as pessoas bem sucedidas sempre sabem o que fazer.

No entanto, lá pelas tantas, o corajoso nômade digital confessou que durante muito tempo esteve totalmente perdido sobre sua vida e sua carreira. E ainda disse que isso continuava acontecendo até hoje. O que era ótimo!
Estar perdido sobre o que fazer lhe dava a oportunidade de explorar e se expor a situações que poderiam lhe surpreender. A frase exata que ele usou foi: “se você não está perdido, é sinal que você está repetindo a mesma coisa sempre”.

Converso sobre carreira com muitas pessoas nas redes sociais. Muitas sabem o que querem, mas não sabem como conseguir. Outras tantas nem sabem o que querem e, obviamente, nem fazem ideia de como descobrir. E um número igualmente grande acham que sabem o que querem, acham que sabem como conseguir mas não entendem porque aquilo não as deixa felizes.

Não as deixa felizes porque o copo não transborda.

Saber o que quer da sua carreira ou se sentir perdido pode fazer pouca diferença na sua felicidade se você souber como fazer para que seu copo esteja transbordando. Se culpar ou deixar sua imaginação te levar para zonas cinzentas onde a felicidade está atrelada apenas a um objetivo vai fazer seu copo esvaziar.

Você pode ter lido este artigo até aqui e esperar que eu te diga como fazer para o seu copo transbordar. Lamento, mas o que vai fazer o seu copo transbordar pode não ser o mesmo que fará o meu. Você não precisa encontrar o seu caminho para descobrir o que te deixa feliz. Estar perdido te dá muito mais opções do que estar focado em um único destino. Não é quente ou frio, céu ou inferno. É apenas a vida

Para mim, quase sempre funciona.

Abraços do Brasil

João Carlos Profírio assina Remédio para Cre(s)cer
Categoriespart(í)culas so(l)tas partículas dos dias

(In)Certezas

As Mudanças em Mudança na ESCOLA

“O novo tempo que se abre com o início do século XXI está imbuído de esperança. Será notoriamente um tempo de novas exigências sociais, onde a arte de «viver juntos» surge como sinónimo de cicatrização daquelas feridas que, no século XX, resultaram do império do ódio e da intolerância” (Carneiro, 2003). 

O registo escolhido para encetar este escrito confere principal enfoque à unidade terminológica “esperança”, que entendo ser o mote para a educação, no atual contexto de contínuas mudanças. O sentimento destacado é prioritário para o crescimento das nossas escolas. Esperança e educação formam a dicotomia perfeita para mudanças eficazes e construtivas. 

Nas últimas décadas, operaram-se múltiplas metamorfoses na escola, envolvidas por diferentes linhas de orientação ao nível político, ideológico e organizacional, que propiciaram o surgimento de uma escola dotada de novas responsabilidades, novas exigências e novos agentes educativos. Emergiu uma filosofia incomum do contexto educativo, com intervenientes diferentes, detentores de princípios e objetivos distintos, solicitando outras responsabilidades. A escola atual reclama a participação de todos e de cada um na construção de Projetos Educativos reais, visíveis e construtivos. Torna-se clara a preocupação das escolas em construir um documento que as identifique e que projete uma ação transparente no que diz respeito aos princípios e valores caracterizadores de cada comunidade educativa. Esta transparência será mais facilmente alcançada se todos os agentes forem chamados a intervir na construção do documento. Só a escola que pensa, que adota hábitos angulares de autorreflexão, em que intervêm todos os agentes educativos, movidos pelo diálogo e pela comunicação, consegue tornar-se num espaço procurado. Hoje, concebemos a escola como uma comunidade dotada de pensamento, identidade e perfil singulares, capaz de criar, projetar, agir, refletir e avaliar, na tentativa de definir e redefinir constantemente as suas estratégias na conquista do sucesso. Surgiu, assim, uma nova “gramática escolar”, que solicita uma regulação constante das opções tomadas e uma reflexão partilhada por todos os agentes educativos. 

Consciente de que o processo de mudança educativa e da própria cultura escolar é dinâmico e imprescindível, importa reforçar a ideia de que estas mudanças poderão comprometer o sucesso da instituição escolar se não lhes dermos tempo e espaço para mudarem o pretendido. Atualmente, a realidade escolar atual depara-se com a publicação de uma pluralidade de normativos impostos, por vezes infundados e, consequentemente, incompreendidos, capazes de gerar atitudes de descrédito face ao resultado das mudanças instituídas. 

Por outro lado, revela-se imperioso que os líderes compreendam o processo de mudança. Qualquer objetivo moral sem a necessária compreensão da mudança conduzirá a um “martírio moral”. Este objetivo moral emerge relacionado com as opções e os resultados. 

Uma teoria de mudança deverá promover a capacidade de refletir, concebendo que as inovações se realizam, efetivamente, nas aulas, nas escolas, nas reuniões e não nos textos oficiais. Cabe aos docentes uma atitude proativa, que permita mudarem as suas práticas, validando criticamente as propostas normativas e protagonizando uma autonomia profissional conducente à mudança. 

Graça Rocha

Graça Rocha assina (In)Certezas.


Categoriespart(í)culas li(t)erárias

adeus sem dizer adeus…

Augustina. Obrigado Augustina Bessa Luís.

A morte levou-a. Mas não levou a sua memória, as suas palavras, os seus livros e ensaios. A morte pode vir vestida de tecido e levar um corpo, que não apaga o que a vida escreveu.

Faltou tanto. Falta sempre quando se parte. Mas a si apenas me lembra uma coisa, a notabilidade de um Nobel que lhe assentava tão bem. Mas a sua simplicidade aparente não o desejava. Não se deseja tudo aquilo que se merece. E merecia-o.

“Acabarei como aquele que disse que pouco louvou na vida e se arrepende de não ter louvado ainda menos.”

O livro e as folhas nele contidas, foram sendo redigidas pela audácia de uma mulher sem medos. E sempre na roça das frases, devastando ideias e ideais, voçê não se prostrou perante os pensamentos alheios. E escreveu, escreveu e deu a saborear tantas historias, que hoje recordo com a paz de quem olha o seu nome e sente mais do que isso, mais do que as capas, os titulos ou os louvores…sente a paz de uma sabedoria unica e transversal ao seu tempo…

“O privilégio de se ser uma vítima do nosso sentimento de superioridade, é difícil de suportar. Assusta muita gente, parece uma heresia em tempos como os nossos. E, no entanto, é fundamental, para que uma obra seja feita.”

Obrigado Augustina Bessa Luís.

E nunca se diz adeus a quem nunca nos disse adeus…